Volver a los 17: a música que nos pergunta o quanto de nós ainda não envelheceu
Há músicas de que gostamos. Há músicas que admiramos. E há aquelas que, por alguma razão difícil de explicar, nos atingem em um lugar muito mais profundo. Volver a los 17 é uma delas para mim. Talvez tenha relação com minha visão de mundo, com minha preocupação permanente com a justiça social, com a desigualdade e com aqueles que quase sempre ficam à margem. Talvez seja simplesmente porque, depois de certa idade, começamos a compreender melhor o que significa olhar para trás e perceber quanto da nossa capacidade de acreditar, de amar e de nos indignar foi sendo testada pelo caminho.
Sempre que ouço Mercedes Sosa cantar Volver a los 17, alguma coisa acontece (e não apenas no meu coração, Caetano).
E há uma primeira descoberta importante por trás dessa emoção: a música não é de Mercedes Sosa. Foi composta pela chilena Violeta Parra, uma das figuras fundamentais da cultura latino-americana, e lançada nos anos 1960. Mercedes a transformaria depois em uma de suas interpretações mais marcantes. Talvez por isso as duas tenham se tornado quase inseparáveis no imaginário de quem conhece a canção. Violeta colocou no papel uma extraordinária reflexão sobre o amor. Mercedes colocou nela uma voz que parece carregar a história inteira de um continente. E há uma versão que, para mim, é simplesmente impagável: Mercedes Sosa cantando ao lado de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa e Milton Nascimento. Cinco vozes extraordinárias reunidas em torno de uma canção que parece resumir muito do que há de mais profundo na alma latino-americana.
O primeiro verso já contém praticamente uma filosofia de vida: “Volver a los diecisiete después de vivir un siglo”. Voltar aos 17 depois de viver um século.
Violeta evidentemente não está falando de idade. Está falando da possibilidade de recuperar algo que o tempo costuma retirar de nós. Aos 17 anos ainda acreditamos com uma intensidade que depois aprendemos a controlar. Amamos sem conhecer inteiramente as consequências. Sofremos como se a dor fosse definitiva. Indignamo-nos como se todas as injustiças pudessem ser corrigidas. O tempo nos ensina muito, mas cobra seu preço. Aprendemos a desconfiar, a relativizar, a criar defesas. Ficamos mais experientes e, algumas vezes, também mais duros.
O extraordinário de Volver a los 17 é afirmar que o amor pode fazer o caminho inverso. Não apagar aquilo que vivemos, mas devolver a capacidade de sentir que tínhamos antes de tantas cicatrizes. E talvez seja justamente aí que a canção deixe de ser apenas uma música sobre o amor entre duas pessoas.
Violeta Parra pertence a uma tradição artística latino-americana na qual vida, cultura popular, sofrimento e consciência social dificilmente podem ser separados. Sua obra ajudou a preparar o terreno para a Nueva Canción Chilena, movimento que transformaria a música popular também em instrumento de identidade, resistência e reflexão política. Mercedes Sosa faria algo semelhante na Argentina e se tornaria uma das maiores vozes da Nueva Canción latino-americana.
Por isso, quando Mercedes canta Violeta, é quase impossível ouvir apenas uma história de amor. Existe ali o amor pelo outro, certamente. Mas é possível ouvir também o amor pelo ser humano, pelo povo, pela dignidade e pela possibilidade de um mundo diferente. Não porque a letra faça um discurso político explícito. Não faz. Sua força está justamente em algo mais profundo: ela fala da capacidade de continuar sensível.
E talvez não exista verdadeira luta por justiça social sem essa sensibilidade. Podemos discutir ideologias, governos, sistemas econômicos e políticas públicas. Tudo isso é necessário. Mas existe alguma coisa anterior à política: a capacidade de olhar para o sofrimento de outra pessoa e não considerá-lo normal. A indignação diante da injustiça nasce primeiro de uma reação humana. Alguma coisa dentro de nós diz que aquilo não deveria acontecer.
Nesse sentido, conservar alguma coisa dos 17 anos talvez seja também uma atitude política. Não a ingenuidade. Não a incapacidade de compreender a complexidade do mundo. Mas aquela recusa juvenil em aceitar que a desigualdade, a fome, a violência e a humilhação sejam simplesmente parte inevitável da paisagem.
Há ainda uma dimensão da música que me toca particularmente: a espiritual.
Em determinado momento, Violeta compara a profundidade desse sentimento à de uma criança diante de Deus. A imagem é belíssima porque aproxima o amor de uma experiência que não pode ser inteiramente explicada pela razão. A criança diante do mistério não domina conceitos teológicos. Ela simplesmente se entrega ao assombro.
E isso tem uma proximidade impressionante com uma ideia central do cristianismo. No Evangelho, Jesus coloca a criança como referência para aqueles que desejam entrar no Reino de Deus. Não se trata de infantilidade. Trata-se de confiança, abertura e ausência daquele cinismo que tantas vezes confundimos com maturidade.
Sob essa perspectiva, voltar aos 17 pode ser lido quase como uma conversão.
Não uma conversão religiosa no sentido institucional, mas aquilo que a tradição cristã chama de metanoia: uma transformação profunda da maneira de olhar, sentir e viver. O amor quebra nossas defesas e nos devolve a vulnerabilidade. E a vulnerabilidade, embora costume ser tratada como fraqueza, ocupa um lugar central no cristianismo. O Deus cristão não se revela pelo poder de um imperador, mas pela fragilidade de uma criança e, mais tarde, pela vulnerabilidade extrema de um homem crucificado.
Há algo ainda mais bonito nessa aproximação entre amor humano e experiência espiritual. O cristianismo afirma que não é possível separar completamente o amor a Deus do amor ao outro. A Primeira Carta de João chega a formular isso de maneira radical: quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus, a quem não vê.
De repente, Volver a los 17 ganha outra dimensão.
O amor que nos devolve a juventude interior também pode nos devolver a capacidade de enxergar o outro. E talvez aí se encontrem coisas que muitas vezes tratamos separadamente: amor, fé e justiça social.
A fé que não percebe o sofrimento humano corre o risco de se transformar apenas em rito. A política que perde a capacidade de amar o ser humano pode virar simplesmente disputa pelo poder. E o amor que se fecha exclusivamente em duas pessoas talvez ignore que fazemos parte de algo muito maior.
É por isso que considero Volver a los 17 uma música profundamente espiritual sem precisar ser uma música religiosa. Ela fala de uma espécie de ressurreição interior.
Depois de viver “um século”, depois das perdas, das decepções, das injustiças testemunhadas e das certezas que a vida se encarregou de destruir, ainda existe a possibilidade de alguma coisa nascer novamente dentro de nós.
Talvez seja isso que me emocione tanto quando ouço Mercedes Sosa.
Aquela voz grave, enorme, carregada de história, não parece pedir que voltemos literalmente à juventude. Ela parece fazer uma pergunta muito mais difícil: depois de tudo o que você viveu, quanto daquele jovem de 17 anos ainda existe dentro de você?
Não sei se gostaria de voltar aos meus 17 anos. Provavelmente não. Aliás, definitivamente não. A experiência também tem suas recompensas, e algumas delas só chegam com o tempo.
Mas gostaria de chegar ao fim da vida conservando algumas coisas daquele rapaz: a capacidade de me indignar diante de uma injustiça, de acreditar que determinadas coisas ainda podem mudar, de me emocionar com uma música e, principalmente, de não considerar ingenuidade aquilo que talvez seja uma das formas mais profundas de resistência.
Continuar acreditando no ser humano. Talvez Violeta Parra tenha compreendido isso muito antes de nós.
Há coisas que o tempo envelhece. O amor, quando é verdadeiro, faz o contrário.
Volver A Los 17 (1966)
(Violeta Parra)
Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avance
El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.