O filme Odisseia me fez relembrar uma das letras mais inteligentes da música brasileira
Confesso que não foi ouvindo rádio nem uma playlist qualquer que essa música voltou à minha cabeça. Foi ao ver que o filme Odisseia estava chegando aos cinemas.
Bastou ler esse nome para que minha memória voltasse imediatamente à Guerra de Troia, a Ulisses, a Helena, ao famoso Cavalo de Troia e àquela que considero uma das letras mais brilhantes da música brasileira, lançada em 1982: “Mulher Nova, Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer sem Sentir Dor”, de Otacílio Batista e Zé Ramalho, eternizada na voz de Amelinha. Mas que Zé Ramalho também canta como ninguém.
Resolvi ouvi-la novamente. Descobri que ela ficou ainda melhor com o passar dos anos. Claro, é o nosso entendimento e nossa visão de mundo que muda. À primeira vista, parece apenas uma canção exaltando a beleza feminina. Mas basta prestar atenção aos versos para perceber que estamos diante de uma verdadeira aula de história, literatura, mitologia e poesia popular.
Logo na abertura, o compositor nos transporta para um dos episódios mais conhecidos da Antiguidade.
“Numa luta de gregos e troianos, Por Helena, a mulher de Menelau…”
Em apenas dois versos, ele resume uma guerra que atravessou quase três mil anos de história e continua fascinando a humanidade. Não há preocupação com rigor acadêmico. Apenas poesia. A Guerra de Troia é reduzida ao seu aspecto mais humano: uma paixão capaz de mobilizar exércitos.
A música segue com um verso incrível:
“Conta a história que um cavalo de pau…”
Não é “o lendário Cavalo de Troia”. Não é “o gigantesco cavalo de madeira”. É simplesmente um “cavalo de pau”.
A genialidade está justamente aí. Uma das maiores estratégias militares da literatura ocidental é traduzido para a linguagem simples da poesia nordestina. O cordel conversa de igual para igual com Homero. O poeta os traz para perto da nossa cultura.
A música segue fazendo exatamente isso. Sai da mitologia e entra na história ao falar de Alexandre, o Grande.
“Dominava o maior conquistador.”
Esse talvez seja o verso central da canção. Alexandre conquistou povos, cidades e um império gigantesco. Mas quem conquista Alexandre é Roxana.
A inversão é perfeita. O homem que domina o mundo acaba dominado pelo amor.
A partir daí, a letra muda de perspectiva. Ela deixa de falar apenas de personagens históricos e passa a falar da própria condição humana.
“Quem não ama o sorriso feminino, Desconhece a poesia de Cervantes.”
Esse verso sempre me chama atenção porque Cervantes é citado não por acaso. O autor de Dom Quixote talvez tenha entendido como poucos que muitas das grandes aventuras humanas nascem de um ideal, de um sonho, de uma mulher real ou imaginada.
Depois vêm os navegadores.
“A bravura dos grandes navegantes, Enfrentando a procela em seu furor…”
A palavra “procela”, hoje quase esquecida, significa tempestade em alto-mar. O poeta escolhe uma palavra rara porque ela carrega uma sonoridade épica. Não é apenas uma tempestade. É a fúria do oceano.
E então chega Lampião. E aí vem na minha cabeça a reportagem que eu fiz para o Domingão do Faustão na Fazenda Angicos, bem no lugar onde Lampião e sua tropa foram mortos. Um lugar que até hoje me provoca curiosidade e aflição.
É curioso perceber como a música coloca, na mesma linha histórica, Menelau, Alexandre e Virgulino Ferreira. Troia, Macedônia e sertão nordestino passam a fazer parte da mesma narrativa.
Não importa o século. Não importa o continente. Todos eles representam homens fortes, guerreiros ou conquistadores. E todos acabam derrotados pelo mesmo adversário: o amor.
É evidente que a letra reflete a visão de sua época. A mulher aparece quase sempre pelos olhos masculinos: bonita, jovem, carinhosa, inspiradora. Hoje certamente escreveríamos algumas dessas passagens de forma diferente.
Mas isso não diminui a inteligência da composição. Pelo contrário.
Ela propõe uma reflexão interessante: a história costuma registrar batalhas, conquistas, reis e generais. O poeta lembra que, muitas vezes, por trás dessas grandes decisões estavam sentimentos profundamente humanos.
Talvez seja essa a verdadeira mensagem da canção.
Helena não vence gregos nem troianos. Roxana não derrota Alexandre em campo de batalha. Maria Bonita não toma o comando do cangaço.
Mas todas elas alteram o destino de homens que pareciam invencíveis.
E talvez seja justamente por isso que me lembrei dessa música ao pensar na Odisseia. Porque tanto Homero quanto Otacílio Batista e Zé Ramalho falam, no fundo, da mesma coisa.
Não das guerras. Nem dos heróis. Mas daquilo que realmente move a humanidade.
As paixões.
Mulher Nova Bonita E Carinhosa -1984
(Otacílio Batista e Zé Ramalho)
Numa luta de gregos e troianos
Por Helena, a mulher de Menelau
Conta a história que um cavalo de pau
Terminava uma guerra de dez anos
Menelau, o maior dos espartanos
Venceu Páris, o grande sedutor
Humilhando a família de Heitor
Em defesa da honra caprichosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor
Alexandre figura desumana
Fundador da famosa Alexandria
Conquistava na Grécia e destruía
Quase toda a população Tebana
A beleza atrativa de Roxana
Dominava o maior conquistador
E depois de vencê-la, o vencedor
Entregou-se à pagã mais que formosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor
A mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino
Quem não ama o sorriso feminino
Desconhece a poesia de Cervantes
A bravura dos grandes navegantes
Enfrentando a procela em seu furor
Se não fosse a mulher mimosa flor
A história seria mentirosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor
Virgulino Ferreira, o Lampião
Bandoleiro das selvas nordestinas
Sem temer a perigo nem ruínas
Foi o rei do cangaço no sertão
Mas um dia sentiu no coração
O feitiço atrativo do amor
A mulata da terra do condor
Dominava uma fera perigosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor