Blog do Hercules https://blogdohercules.com.br/ Histórias, músicas e ideias para quem gosta de entender o mundo. Sat, 12 Sep 2026 00:33:14 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 A velha roupa colorida de Belchior ainda nos serve? https://blogdohercules.com.br/a-velha-roupa-colorida-de-belchior-ainda-nos-serve/ https://blogdohercules.com.br/a-velha-roupa-colorida-de-belchior-ainda-nos-serve/#respond Mon, 07 Sep 2026 20:39:28 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=91 Há 50 anos, Belchior juntou Beatles, Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira e Edgar Allan Poe para dizer que o passado é uma roupa que já não nos serve. Em tempos de inteligência artificial e transformações cada vez mais rápidas, “Velha Roupa Colorida” continua fazendo uma provocação incômoda e necessária: somos capazes de envelhecer sem deixar nossa cabeça envelhecer junto?

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É preciso ser muito bom para colocar na mesma música os Beatles, Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira e Edgar Allan Poe. É preciso ser melhor ainda para fazer isso sem parecer uma exibição de cultura, sem transformar a letra numa coleção de referências e sem exigir que o ouvinte conheça nenhuma delas para entender o que está sendo dito. Belchior conseguia. Porque Belchior era um gênio.

“Velha Roupa Colorida”, lançada em 1976 no álbum Alucinação, é uma dessas músicas que podemos ouvir durante décadas sem perceber tudo o que está acontecendo dentro dela. Eu a escuto há muito tempo. Sempre amei essa música. Conheço seus versos, sua melodia, aquela maneira tão particular de Belchior cantar. Mas talvez só agora eu esteja percebendo algumas coisas que estavam ali o tempo inteiro. A música não mudou. Eu mudei.

Belchior começa anunciando que uma nova mudança estava próxima. É impossível ouvir isso sem pensar no Brasil de 1976. Vivíamos sob a ditadura militar, em um país ainda marcado pela censura e pela repressão, embora começassem a surgir sinais de uma futura abertura política. Não acho que possamos afirmar que Belchior estivesse prevendo especificamente o fim da ditadura. A mudança de que ele fala me parece bem maior. É política, certamente, mas também cultural, geracional e individual.

Porque logo vem uma constatação muito mais incômoda: aquilo que pouco tempo antes era jovem e novo já havia envelhecido. E talvez esteja aí uma das grandes provocações da música.

Belchior falava para uma geração que havia acabado de revolucionar os costumes. A geração da contracultura, do movimento hippie, do cabelo comprido, do amor livre, do flower power, dos Beatles. Jovens que haviam questionado seus pais, as instituições, a moral, a política e a maneira de viver. E Belchior parecia dizer a eles: vocês também envelheceram.

O que foi ruptura pode virar tradição. O que foi contestação pode se transformar em acomodação. E talvez exista algo ainda mais perigoso: o que foi revolucionário pode acabar virando apenas uma lembrança confortável do tempo em que fomos revolucionários.

Por isso me chama tanto a atenção quando Belchior diz que “precisamos todos rejuvenescer”. Não acho que ele esteja falando de idade. Rejuvenescer, ali, é conservar a capacidade de perceber o novo. É admitir que nossas certezas também envelhecem. É aceitar que o mundo não tem obrigação de continuar cabendo nas explicações que construímos para ele.

Então Belchior começa a convocar os símbolos daquela geração. Os Beatles aparecem em She’s Leaving Home, a história de uma jovem que deixa a casa dos pais. Bob Dylan surge em Like a Rolling Stone. Vêm o dedo em V, o cabelo ao vento, o amor e a flor. Imagens que remetem imediatamente à contracultura, à paz, ao movimento hippie, à juventude que acreditou que poderia construir um mundo diferente. Mas onde foi parar tudo aquilo?

É como se Belchior olhasse para um velho cartaz dos anos 60 e perguntasse o que aconteceu com as promessas que estavam impressas nele. Até chegar a uma das frases mais bonitas que a música brasileira já produziu: “o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

A metáfora é perfeita. Porque a roupa não é feia. Ela é colorida. O passado pode ter sido lindo. Podemos sentir saudade, podemos amá-lo, podemos reconhecer que foi fundamental para nos transformar naquilo que somos. Só não podemos continuar tentando vesti-lo como se nosso corpo não tivesse mudado. E Belchior diz justamente isso: no presente, a mente e o corpo são diferentes.

É então que aparecem os pássaros. E talvez seja nesse momento que a genialidade intelectual de Belchior fique mais evidente. Ele vai buscar O Corvo, de Edgar Allan Poe. No poema, publicado em 1845, o corvo responde repetidamente às angústias do narrador com a mesma palavra: Nevermore. Nunca mais.

Belchior brinca com os sons: raven, never, raven, never. Corvo, nunca. Corvo, nunca. Só que esse pássaro não está sozinho. Há também o Blackbird dos Beatles. E há o Assum Preto de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

De repente, um poeta americano do século XIX, a maior banda inglesa do século XX e dois gigantes da cultura nordestina brasileira estão dentro da mesma canção. Belchior encontra uma ligação entre universos que, aparentemente, jamais se encontrariam e os coloca para conversar.

Não é erudição pela erudição. Todos aqueles pássaros estão ali porque ajudam a falar de memória, sofrimento, liberdade, permanência e transformação. E acabam conduzindo à mesma constatação: aquilo que passou não volta. Talvez eu esteja entendendo melhor essa música agora justamente porque também envelheci.

Tenho 57 anos e passei boa parte da vida ouvindo “Velha Roupa Colorida”. Quando eu era mais jovem, “precisamos todos rejuvenescer” podia soar simplesmente como uma convocação à mudança. Hoje, essa frase me provoca de outra maneira.

Porque, aos 57, rejuvenescer obviamente não pode significar voltar a ter 20. Nem gostaria. Significa não permitir que a curiosidade envelheça. Significa não transformar experiência em certeza absoluta. Significa não olhar para tudo o que surge depois de nós com aquela perigosa superioridade de quem acredita que, por ter vivido mais, já entendeu como o mundo funciona.

Talvez eu perceba isso também porque sou jornalista e vi minha profissão mudar inúmeras vezes. Comecei a trabalhar num mundo que hoje praticamente não existe mais. Vi tecnologias chegarem sob desconfiança, hábitos desaparecerem, outros nascerem e certezas profissionais que pareciam inabaláveis perderem completamente o sentido.

Agora estamos diante da inteligência artificial, talvez uma das maiores transformações que minha geração já presenciou. Temos uma quantidade de informação disponível que seria inimaginável poucas décadas atrás. Podemos acessar livros, pesquisas, músicas, jornais, documentos e pessoas em segundos. Ferramentas de inteligência artificial começam a mudar a maneira como trabalhamos, pesquisamos, escrevemos, aprendemos e provavelmente até a maneira como pensamos.

Diante disso, tenho duas possibilidades. Posso simplesmente dizer que no meu tempo era melhor. Ou posso tentar entender. Isso não significa acreditar que tudo o que é novo é necessariamente bom. Seria simplório demais. Há ideias antigas que permanecem verdadeiras e há novidades que não passam de velharias com embalagem moderna. Rejuvenescer intelectualmente não é aderir a tudo. É continuar disposto a olhar, experimentar, questionar e aprender antes de rejeitar.

É conseguir dizer “eu não sei”. É rever uma convicção quando os fatos já não a sustentam. É conversar com alguém que nasceu décadas depois de nós sem partir do princípio de que nossa geração compreendeu o mundo melhor do que a dele. É não permitir que a experiência, uma das maiores vantagens que adquirimos com a idade, se transforme numa prisão.

Talvez envelhecer seja inevitável. Ficar intelectualmente velho, não. E há algo quase poético em voltar a “Velha Roupa Colorida” justamente agora. Em 2026, a música completa cinquenta anos. A canção que avisava que aquilo que um dia foi jovem e novo acabaria envelhecendo tornou-se, ela própria, uma velha senhora.

Só que não envelheceu. Talvez porque algumas grandes obras façam exatamente isso: permanecem jovens porque não tentam impedir que o tempo passe. Nós é que vamos mudando ao redor delas e, de tempos em tempos, voltamos para descobrir que havia ali alguma coisa que ainda não tínhamos idade para compreender.

Talvez seja isso que esteja acontecendo comigo e “Velha Roupa Colorida”. Eu já conhecia a música. Só não era ainda o homem que a está ouvindo hoje. E, cinquenta anos depois, Belchior continua fazendo a mesma provocação. Mudanças aconteceram. Outras estão acontecendo neste exato momento. Muitas ainda virão. O novo sempre vem. A questão é saber se, quando ele chegar, ainda estaremos dispostos a trocar de roupa.

Velha Roupa Colorida – 1976

(Belchior)

Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem novo
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer

Nunca mais meu pai falou: she’s leaving home
E meteu o pé na estrada, like a rolling stone…
Nunca mais eu convidei minha menina
Para correr no meu carro… loucura, chiclete e som


Nunca mais você saiu a rua em grupo reunido
O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, que é de um cartaz
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais

Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem novo
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer

Como Poe, poeta louco americano, eu pergunto ao passarinho:
Black bird, assum preto, o que se faz?”
E raven never raven never raven never raven never raven
Assum preto, pássaro preto, black bird, me responde:
Tudo já ficou atrás
E raven never raven never raven never raven never raven
Black bird, assum preto, pássaro preto, me responde:
O passado nunca mais

Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem novo
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer
E precisamos todos rejuvenescer
E precisamos todos rejuvenescer

E precisamos todos rejuvenescer

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Cajuína: quando uma canção muda depois que conhecemos sua história https://blogdohercules.com.br/cajuina-quando-uma-cancao-muda-depois-que-conhecemos-sua-historia/ https://blogdohercules.com.br/cajuina-quando-uma-cancao-muda-depois-que-conhecemos-sua-historia/#respond Thu, 27 Aug 2026 22:40:04 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=80 Durante anos, ouvi “Cajuína” sem conhecer a história que inspirou seus versos. Até descobrir o encontro de Caetano Veloso com Heli, pai de Torquato Neto, anos depois da morte do poeta. Uma rosa, uma lágrima, um copo de cajuína e uma pergunta sem resposta transformaram para sempre a maneira como passei a ouvir a canção.

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Tem música que a gente gosta durante anos sem saber exatamente o motivo. A melodia nos pega, alguns versos ficam guardados e percebemos que existe alguma coisa importante ali, mesmo sem saber o que o compositor quis dizer. Sempre foi assim comigo e “Cajuína”, de Caetano Veloso. Gostava da música, gostava daquela pergunta que abre a letra, “Existirmos: a que será que se destina?”, mas nunca tinha parado para entender de verdade aqueles oito versos. Aliás, como pode uma música tão pequena ser tão complexa, tão difícil de entender e ter tanto significado?

Depois que conheci a história de Torquato Neto, ficou difícil ouvir “Cajuína” da mesma maneira.

Torquato Neto foi poeta, jornalista, letrista e um dos personagens fundamentais da geração que criou a Tropicália. Piauiense, nascido em Teresina, foi parceiro de Gilberto Gil, Edu Lobo e do próprio Caetano, entre outros. Era um artista inquieto, interessado em música, cinema, poesia, imprensa e nas transformações culturais que sacudiam o Brasil no final dos anos 1960.

A história dele, porém, foi curta e dolorosa. Torquato enfrentou graves crises pessoais e tirou a própria vida em 10 de novembro de 1972, no Rio de Janeiro, um dia depois de completar 28 anos. A morte abalou Caetano. Mas “Cajuína” não nasceu naquele momento.

Um encontro anos depois

Seis anos depois, entre 1978 e 1979, durante uma excursão pelo Brasil, Caetano estava em Teresina quando recebeu no hotel a visita de Heli da Rocha Nunes, pai de Torquato. Os dois já se conheciam, mas, segundo relato do próprio Caetano, aquela era a primeira vez que se encontravam depois da morte do poeta. E alguma coisa que parecia represada havia anos finalmente se rompeu.

Caetano chorou muito. Heli o levou para casa. Salomé, mãe de Torquato, estava hospitalizada, e os dois ficaram praticamente sozinhos em uma casa cheia de fotografias do filho morto. A partir daí, aconteceu uma daquelas cenas que, se estivessem em um roteiro de cinema, talvez parecessem excessivamente poéticas. Mas aconteceram de verdade.

Foi Heli quem consolou Caetano. Fez carinho nele. Pegou na geladeira uma cajuína, bebida tradicional do Piauí feita a partir do caju, colocou em dois copos e os dois beberam praticamente em silêncio. Depois, Heli foi até o jardim, colheu uma pequena rosa e a entregou ao amigo do filho. Uma cena que seria a base de uma das músicas mais lindas da MPB. Caetano seguiria viagem e escreveria “Cajuína”. A canção foi lançada em 1979, no álbum Cinema Transcendental.

Quando soube dessa história, finalmente comecei a entender a música que havia escutado tantas vezes. E , confesso, imaginei tudo menos uma história assim.

A pergunta que não tem resposta

“Existirmos: a que será que se destina?”

Caetano poderia ter começado perguntando por que Torquato morreu. Poderia falar da juventude interrompida, da amizade ou do sofrimento do amigo. Não faz nada disso. Ele pergunta por todos nós.

A morte de uma pessoa abre uma questão universal: para que existimos? Qual é o sentido de uma vida que pode ser tão intensa, tão criativa e, ao mesmo tempo, terminar tão cedo? Logo depois, essa enorme pergunta filosófica encontra um gesto minúsculo e absolutamente concreto: a rosa pequenina.

E então começamos a compreender a letra. O interlocutor de “Cajuína” não é Torquato. É Heli. É o pai quem lhe dá a rosa. É o pai o “homem lindo”.

Isso muda muito a música. Porque diante de Caetano estava um homem que havia perdido o filho. Seria natural imaginar que Heli precisasse ser consolado. Mas acontece exatamente o contrário. É ele quem acolhe o amigo do filho, passa a mão em sua cabeça, oferece uma bebida, colhe uma flor.

Torquato está em toda parte naquela casa e naquela música, mas não está mais ali. Talvez essa seja a primeira grande beleza de “Cajuína”: ela é construída em torno de uma ausência.

“A sina do menino infeliz”

Quando Caetano fala da “sina do menino infeliz” que “não se nos ilumina”, está falando de Torquato. E talvez a palavra mais importante seja justamente “ilumina”. Caetano não explica a morte do amigo. Não transforma seu suicídio em uma tese psicológica, política ou poética. Não tenta dar uma resposta para aquilo que aconteceu. A sina de Torquato simplesmente não se ilumina. Não sabemos. Não compreendemos.

E talvez jamais possamos compreender completamente o sofrimento que leva uma pessoa àquele ponto. Eu sempre digo que um pai enterrar o filho é a maior inversão que pode acontecer. Mas é justamente a partir daí que Caetano constrói uma das coisas mais bonitas da letra. Ao longo dos versos aparecem palavras ligadas à luz, à visão e à transparência. A sina não se ilumina. A lágrima não se turva. A retina permanece intacta. E, no final, a cajuína é cristalina.

Tudo pode ser visto com absoluta nitidez e, ainda assim, nada pode ser explicado. Caetano olha para Heli. Heli olha para Caetano. Os dois sabem exatamente o que aconteceu. Mas nenhum dos dois consegue responder o motivo.

“A matéria vida era tão fina”

Talvez esse seja o verso que mais mexeu comigo depois que conheci a história.

Caetano não diz simplesmente que a vida é frágil. Isso seria banal. Ele escreve sobre a “matéria vida”. A vida ganha matéria, ganha espessura. E essa matéria é fina.

Torquato havia sido uma presença intensa: poeta, provocador, jornalista, compositor, personagem de uma das gerações mais criativas da cultura brasileira. Mas toda aquela intensidade estava sustentada por algo extremamente delicado: a matéria vida. Tão fina. E “fina” talvez permita ainda outra leitura. Não apenas frágil, mas delicada, preciosa. Uma vida intensa e preciosa que, ao mesmo tempo, podia se romper.

Dois homens que apenas se olham

E então chegamos à imagem que talvez seja a mais difícil e mais bonita da canção: 

“éramos olharmo-nos, intacta retina”.

Caetano poderia simplesmente ter escrito que os dois se olhavam. Mas “éramos olharmo-nos” é outra coisa. Por alguns instantes, aqueles dois homens parecem deixar de ser qualquer outra coisa para se transformarem apenas naquele ato: olhar um para o outro. E a retina permanece intacta.

Isso é especialmente forte porque quase nada naquela história estava intacto. Torquato não estava. A família não estava. Caetano certamente não estava emocionalmente intacto. Uma geração inteira havia atravessado ditadura, prisões, exílio, censura, rupturas e perdas.

Mas a retina estava intacta. Eles ainda podiam olhar um para o outro. Talvez não compreender. Mas olhar.

“A cajuína cristalina em Teresina”

E então uma música que começou com uma das maiores perguntas que podemos fazer termina com uma coisa absolutamente cotidiana. Um copo de cajuína.

Não há uma resposta. Não há uma explicação sobre a morte. Não há uma conclusão sobre o sentido da existência. Há um pai, uma rosa, uma lágrima, dois homens se olhando e uma bebida sobre a mesa.

E talvez seja exatamente isso que torne “Cajuína” tão extraordinária. A pergunta continua sem resposta: a que será que se destina existirmos? Caetano não sabe. Heli provavelmente também não sabia.

Mas, diante daquilo que não pode compreender, um homem é capaz de acolher outro homem. O pai que perdeu o filho consola o amigo que finalmente consegue chorar por ele. Oferece-lhe uma rosa. Divide com ele uma cajuína. Torquato é a ausência em torno da qual os dois se encontram.

E talvez, apenas talvez, exista ali uma espécie de resposta para a pergunta inicial. Não uma resposta intelectual, religiosa ou filosófica. Uma resposta profundamente humana. Quando o sentido da existência não se ilumina, ainda podemos estar diante do outro.

Depois de conhecer essa história, ouvi “Cajuína” novamente. Era a mesma música que eu conhecia havia tantos anos. Mas já não era a mesma música.

(texto escrito em 2013 e atualizado em agosto de 2026)

Cajuína – 1979

(Caetano Veloso)

Existirmos a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

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Por que a gente nunca se cansa de pão de queijo? https://blogdohercules.com.br/por-que-a-gente-nunca-se-cansa-de-pao-de-queijo/ https://blogdohercules.com.br/por-que-a-gente-nunca-se-cansa-de-pao-de-queijo/#respond Sun, 23 Aug 2026 10:00:54 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=65 Por que a gente nunca se cansa de pão de queijo? Talvez porque nenhum seja igual ao outro. Entre receitas, comparações, memórias e algumas heresias recheadas com Nutella, uma declaração de amor a uma das maiores paixões brasileiras.

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Onde eu trabalho tem pão de queijo todos os dias. De manhã e à tarde. Não é benefício trabalhista, não está previsto em contrato e, até onde sei, ninguém incluiu a iguaria na política de recursos humanos da empresa. A responsável é a Mariana, a dona, que é mineira. E Mariana leva pão de queijo a sério.

Tão a sério que instalou uma air fryer no escritório para garantir pão de queijo quente para o pessoal duas vezes por dia. Em algum momento da manhã, e depois novamente à tarde, aquele cheiro começa a circular pelo ambiente. E pelo andar inteiro do prédio. É difícil ignorar. Mais difícil ainda é resistir.

Foi provavelmente numa dessas fornadas que comecei a pensar numa questão aparentemente banal: por que será que o brasileiro gosta tanto de pão de queijo?

Existem algumas respostas bastante óbvias. Porque é gostoso, claro. Porque combina maravilhosamente com café. Porque tem cheiro de casa, de café da manhã, de viagem, de padaria. Porque para muita gente carrega lembranças de infância, da mãe, da avó, de Minas Gerais. Porque pode ser comido de manhã, à tarde ou naquela hora em que você simplesmente passa por uma cesta e resolve pegar um.

Mas comecei a desconfiar de que existe outra razão, menos evidente e, para mim, muito mais interessante: pão de queijo nunca é igual.

Você pode ter comido mil pães de queijo na vida e ainda assim alguém consegue despertar sua curiosidade simplesmente dizendo: “Experimenta esse.”

E você experimenta.

Porque existe o pão de queijo pequeno e mais sequinho, o grande e macio, o que tem uma casquinha crocante e o que praticamente desmancha na boca. Existe aquele em que o queijo domina completamente e aquele em que o polvilho aparece mais. Tem o que estica quando você morde, o que é mais aerado, o que tem o interior úmido, o que é mais pesado. Muda o queijo, muda o polvilho, muda a proporção, muda o forno, muda a mão de quem faz.

E todos continuam sendo pão de queijo. Talvez esteja justamente aí uma parte importante do fascínio. A gente sabe o que vai comer, mas nunca sabe exatamente como será.

É diferente de muitos alimentos cuja excelência está associada à repetição. Você volta a determinado lugar querendo encontrar exatamente aquele sabor de que se lembra. Com o pão de queijo existe também o prazer da descoberta. Você quer saber como é “aquele” pão de queijo.

E depois começa uma das atividades preferidas de quem gosta do assunto: comparar.

“Esse tem pouco queijo.”

“Esse está borrachudo.”

“O daquele lugar é melhor.”

“Você precisava experimentar um que eu comi em Minas.”

“Minha mãe faz diferente.”

“Minha avó fazia um que…”

Todo mundo que gosta de pão de queijo acaba se transformando, em algum momento, em crítico especializado de pão de queijo. E, sem perceber, vai montando um ranking particular. Existe o melhor da padaria, o melhor da estrada, o melhor congelado, o melhor de Minas, o melhor que alguém trouxe para o trabalho e, principalmente, aquele mítico “melhor pão de queijo que já comi na vida”.

Até que aparece outro.

É uma relação que me lembra um pouco o vinho. Ninguém que gosta de vinho diz: “Já tomei Cabernet Sauvignon, portanto não preciso experimentar outro.” Parte da graça está justamente nas diferenças. Existe uma identidade que permite reconhecer aquilo, mas dentro dela cabe um universo de possibilidades.

Com o pão de queijo acontece algo parecido, guardadas, evidentemente, as devidas proporções. E antes que algum enófilo mais ortodoxo se revolte com a comparação.

Agora, toda liberdade precisa ter limites.

E aqui chegamos a uma questão na qual provavelmente perderei o apoio de parte dos leitores: sou contra pão de queijo recheado.

Nutella? Não.

Doce de leite? Não.

Frango? Também não.

Calabresa, carne seca ou qualquer outra coisa que alguém resolva enfiar lá dentro? Continuo no não.

Não estou dizendo que seja ruim. Pode ser delicioso. Pode vender milhares. Pode virar febre nas redes sociais. Cada um come o que quiser. Minha questão é outra: não chame de pão de queijo.

Para explicar minha implicância, lembro de uma conversa com minha filha. Um dia a Manu chegou toda animada:

“Pai, fiz um bolo sem farinha, sem ovo, sem açúcar e sem leite.”

Olhei para ela e respondi:

“Então não é bolo. É outra coisa.”

É mais ou menos o que penso de pão de queijo com Nutella. Se você pega uma coisa que é pão de queijo, abre, coloca Nutella dentro e transforma aquilo em outra experiência gastronômica, tudo bem. Só que, para mim, virou outro negócio qualquer. Pão de queijo não pode ser.

Faço uma concessão ao requeijão. Talvez por corporativismo lácteo. O requeijão ainda pertence à família, conversa com o queijo, conhece os parentes e pode frequentar a festa. Passou disso, considero descaracterização.

E talvez pareça contraditório defender ao mesmo tempo que a graça do pão de queijo está justamente na enorme variedade de receitas e depois querer estabelecer uma fronteira. Para mim, não é.

Pode mudar o queijo. Pode mudar o polvilho. Pode ser crocante, macio, grande, pequeno, aerado, pesado, mais salgado, mais suave. Pode ser a receita centenária de uma família mineira ou aquele congelado do supermercado que, para surpresa geral, ficou espetacular na air fryer.

A graça está justamente em descobrir quantas coisas diferentes podem continuar sendo pão de queijo. Talvez por isso a gente nunca se canse dele. Sempre existe outro para experimentar, outro para comparar e a possibilidade de que, na próxima padaria, na próxima viagem ou na casa de alguém, apareça um candidato a melhor pão de queijo da nossa vida.

E no meu caso existe uma vantagem. Se essa busca é interminável, trabalho no lugar certo.

Afinal, amanhã de manhã a Mariana liga a air fryer de novo.

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O filme Odisseia me fez relembrar uma das letras mais inteligentes da música brasileira https://blogdohercules.com.br/o-filme-odisseia-me-fez-relembrar-uma-das-letras-mais-inteligentes-da-musica-brasileira/ https://blogdohercules.com.br/o-filme-odisseia-me-fez-relembrar-uma-das-letras-mais-inteligentes-da-musica-brasileira/#respond Sat, 15 Aug 2026 21:07:39 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=27 O filme Odisseia me fez voltar a uma canção de Zé Ramalho e Otacílio Batista que transforma grandes personagens da história em uma divertida reflexão sobre o poder feminino.

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Confesso que não foi ouvindo rádio nem uma playlist qualquer que essa música voltou à minha cabeça. Foi ao ver que o filme Odisseia estava chegando aos cinemas.

Bastou ler esse nome para que minha memória voltasse imediatamente à Guerra de Troia, a Ulisses, a Helena, ao famoso Cavalo de Troia e àquela que considero uma das letras mais brilhantes da música brasileira, lançada em 1982: “Mulher Nova, Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer sem Sentir Dor”, de Otacílio Batista e Zé Ramalho, eternizada na voz de Amelinha. Mas que Zé Ramalho também canta como ninguém. 

Resolvi ouvi-la novamente. Descobri que ela ficou ainda melhor com o passar dos anos. Claro, é o nosso entendimento e nossa visão de mundo que muda. À primeira vista, parece apenas uma canção exaltando a beleza feminina. Mas basta prestar atenção aos versos para perceber que estamos diante de uma verdadeira aula de história, literatura, mitologia e poesia popular.

Logo na abertura, o compositor nos transporta para um dos episódios mais conhecidos da Antiguidade.

“Numa luta de gregos e troianos, Por Helena, a mulher de Menelau…”

Em apenas dois versos, ele resume uma guerra que atravessou quase três mil anos de história e continua fascinando a humanidade. Não há preocupação com rigor acadêmico. Apenas poesia. A Guerra de Troia é reduzida ao seu aspecto mais humano: uma paixão capaz de mobilizar exércitos.

A música segue com um verso incrível:

“Conta a história que um cavalo de pau…”

Não é “o lendário Cavalo de Troia”. Não é “o gigantesco cavalo de madeira”. É simplesmente um “cavalo de pau”.

A genialidade está justamente aí. Uma das maiores estratégias militares da literatura ocidental é traduzido para a linguagem simples da poesia nordestina. O cordel conversa de igual para igual com Homero. O poeta os traz para perto da nossa cultura.

A música segue fazendo exatamente isso. Sai da mitologia e entra na história ao falar de Alexandre, o Grande.

“Dominava o maior conquistador.”

Esse talvez seja o verso central da canção. Alexandre conquistou povos, cidades e um império gigantesco. Mas quem conquista Alexandre é Roxana.

A inversão é perfeita. O homem que domina o mundo acaba dominado pelo amor.

A partir daí, a letra muda de perspectiva. Ela deixa de falar apenas de personagens históricos e passa a falar da própria condição humana.

“Quem não ama o sorriso feminino, Desconhece a poesia de Cervantes.”

Esse verso sempre me chama atenção porque Cervantes é citado não por acaso. O autor de Dom Quixote talvez tenha entendido como poucos que muitas das grandes aventuras humanas nascem de um ideal, de um sonho, de uma mulher real ou imaginada.

Depois vêm os navegadores.

“A bravura dos grandes navegantes, Enfrentando a procela em seu furor…”

A palavra “procela”, hoje quase esquecida, significa tempestade em alto-mar. O poeta escolhe uma palavra rara porque ela carrega uma sonoridade épica. Não é apenas uma tempestade. É a fúria do oceano.

E então chega Lampião. E aí vem na minha cabeça a reportagem que eu fiz para o Domingão do Faustão na Fazenda Angicos, bem no lugar onde Lampião e sua tropa foram mortos. Um lugar que até hoje me provoca curiosidade e aflição.

É curioso perceber como a música coloca, na mesma linha histórica, Menelau, Alexandre e Virgulino Ferreira. Troia, Macedônia e sertão nordestino passam a fazer parte da mesma narrativa.

Não importa o século. Não importa o continente. Todos eles representam homens fortes, guerreiros ou conquistadores. E todos acabam derrotados pelo mesmo adversário: o amor.

É evidente que a letra reflete a visão de sua época. A mulher aparece quase sempre pelos olhos masculinos: bonita, jovem, carinhosa, inspiradora. Hoje certamente escreveríamos algumas dessas passagens de forma diferente.

Mas isso não diminui a inteligência da composição. Pelo contrário.

Ela propõe uma reflexão interessante: a história costuma registrar batalhas, conquistas, reis e generais. O poeta lembra que, muitas vezes, por trás dessas grandes decisões estavam sentimentos profundamente humanos.

Talvez seja essa a verdadeira mensagem da canção.

Helena não vence gregos nem troianos. Roxana não derrota Alexandre em campo de batalha. Maria Bonita não toma o comando do cangaço.

Mas todas elas alteram o destino de homens que pareciam invencíveis.

E talvez seja justamente por isso que me lembrei dessa música ao pensar na Odisseia. Porque tanto Homero quanto Otacílio Batista e Zé Ramalho falam, no fundo, da mesma coisa.

Não das guerras. Nem dos heróis. Mas daquilo que realmente move a humanidade.

As paixões.

Mulher Nova Bonita E Carinhosa -1984

(Otacílio Batista e Zé Ramalho) 

Numa luta de gregos e troianos
Por Helena, a mulher de Menelau
Conta a história que um cavalo de pau
Terminava uma guerra de dez anos
Menelau, o maior dos espartanos
Venceu Páris, o grande sedutor
Humilhando a família de Heitor
Em defesa da honra caprichosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor

Alexandre figura desumana
Fundador da famosa Alexandria
Conquistava na Grécia e destruía
Quase toda a população Tebana
A beleza atrativa de Roxana
Dominava o maior conquistador
E depois de vencê-la, o vencedor
Entregou-se à pagã mais que formosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor

A mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino
Quem não ama o sorriso feminino
Desconhece a poesia de Cervantes
A bravura dos grandes navegantes
Enfrentando a procela em seu furor
Se não fosse a mulher mimosa flor
A história seria mentirosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor

Virgulino Ferreira, o Lampião
Bandoleiro das selvas nordestinas
Sem temer a perigo nem ruínas
Foi o rei do cangaço no sertão
Mas um dia sentiu no coração
O feitiço atrativo do amor
A mulata da terra do condor
Dominava uma fera perigosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor

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A mão que um dia segurou meus filhos https://blogdohercules.com.br/a-mao-que-um-dia-segurou-meus-filhos/ https://blogdohercules.com.br/a-mao-que-um-dia-segurou-meus-filhos/#respond Sun, 09 Aug 2026 20:29:40 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=39 Ao perceber as marcas do tempo nas próprias mãos, um pai se lembra dos filhos pequenos e descobre nelas a história de uma vida inteira de segurar e soltar.

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Antes de ontem à noite, antes do jantar, olhei para a minha mão e fiquei surpreso.

Não sei exatamente por quê. Talvez a luz tenha batido de um jeito diferente. Talvez eu simplesmente tenha parado por alguns segundos, coisa que a gente quase nunca faz, e enxergado aquilo que estava diante de mim havia tanto tempo.

Minha mão envelheceu. As veias estão mais aparentes. A pele já não tem a mesma textura. Há marcas, pequenas linhas, sinais discretos de um tempo que passou sem pedir licença. Fiquei olhando para ela por alguns instantes e tive uma sensação estranha. Não exatamente tristeza. Também não era medo. Era uma espécie de espanto e melancolia. Quando foi que isso aconteceu?

A gente percebe o tempo passando pelos cabelos indo embora, pelas fotografias antigas, pelas roupas que já não servem, pelas pessoas que partiram. Mas eu nunca tinha pensado que um dia perceberia o tempo olhando para a minha própria mão. Lembrei da minha mãezinha. 

E então pensei nos meus filhos. Aquela mão segurou Bruno. Segurou Tiago. Segurou Manuela. Um dia eles couberam nos meus braços. É uma frase simples, mas talvez seja uma das coisas mais impressionantes que um pai possa dizer depois de muitos anos: meus filhos couberam nas minhas mãos e nos meus braços.

Eu carreguei quando ainda não sabiam andar. Segurei as mãos pequenas para atravessar a rua. Dei colo. Apontei coisas. Ensinei outras. Fiz carinho. Medi febres. Abri portas. Amarrei sapatos. Talvez tenha enxugado lágrimas que hoje nem eles nem eu conseguimos mais lembrar. E aquela mão estava lá. A mesma que antes de ontem encontrei repousada sobre a mesa.

Hoje Bruno, Tiago e Manuela são grandes. E há alguma coisa profundamente desconcertante nisso porque, para um pai, os filhos crescem de uma maneira diferente. A gente vê o adulto diante de nós, claro. Conversa de igual para igual. Escuta opiniões, discute trabalho, planos, escolhas. Mas existe um lugar dentro da gente onde eles continuam pequenos. Talvez seja por isso que os pais tenham essa mania aparentemente absurda de continuar perguntando se o filho chegou bem, mesmo quando ele já dirige há muitos anos. De mandar mensagem para saber se está tudo certo. De oferecer ajuda quando ninguém pediu.

Não é porque esquecemos que eles cresceram. É justamente porque lembramos demais de quando eram pequenos.

Hoje é Dia dos Pais.

Durante muito tempo, pensei nessa data pelo lado dos filhos. O presente, o almoço, o abraço, o carinho. Hoje penso um pouco diferente. Ser pai é também assistir ao tempo passar.

É perceber que aquele menino que você levava pela mão atravessa a rua sozinho. Que aquela criança que dormia no seu colo construiu a própria vida. Que aqueles braços que um dia dependiam dos seus agora sustentam outras coisas, outras pessoas, outros sonhos.

E talvez exista uma melancolia inevitável nisso. Não porque eu quisesse que eles continuassem crianças. Seria egoísmo desejar uma coisa dessas. Mas porque cada conquista deles carrega silenciosamente uma despedida.

O primeiro passo é a despedida do bebê que não andava. O primeiro dia de escola é a despedida da criança que ficava em casa. A adolescência se despede da infância. A vida adulta se despede de tantas outras coisas.

E nós, pais, vamos assistindo a essas pequenas partidas enquanto comemoramos cada chegada. Talvez seja esse um dos grandes paradoxos da paternidade. Queremos criar nossos filhos para que não precisem de nós. E, quando conseguimos, sentimos falta do tempo em que precisavam.

Antes de ontem, olhando para minha mão, pensei que aquelas marcas todas talvez não fossem apenas sinais de envelhecimento. Talvez fossem testemunhas. Esta mão segurou três filhos: Bruno, Tiago e Manuela.

Segurou cada um deles quando o mundo ainda era enorme demais e eles pequenos demais para enfrentá-lo sozinhos. Depois, aos poucos, foi soltando. É isso que um pai faz durante a vida inteira. Segura. Protege. Ensina. E solta. Não de uma vez. Nunca de uma vez.

Solta um pouco quando eles começam a andar. Mais um pouco quando começam a escolher. Mais um pouco quando começam a discordar. Até chegar o momento em que compreendemos que aquelas vidas já não nos pertencem, se é que algum dia pertenceram.

Mas existe uma coisa que nunca soltamos. O amor. Esse permanece estranhamente intacto enquanto todo o resto envelhece. A pele muda. O corpo muda. Os filhos crescem. O tempo passa. Mas há uma parte de mim que ainda reconhece perfeitamente o peso de cada um daqueles três corpos pequenos nos meus braços.

Talvez um dia minhas mãos estejam ainda mais marcadas. Espero que sim. Porque agora entendo um pouco melhor o que aquelas marcas significam. Elas não dizem apenas que o tempo passou. Dizem que eu estive aqui. E que, durante uma parte maravilhosa dessa passagem, tive três pequenas mãos segurando a minha.

Hoje, no Dia dos Pais, talvez eu olhe novamente para Bruno, Tiago e Manuela. E talvez eles vejam apenas o pai que envelheceu um pouco. E talvez tenha ficado mais teimoso. Mas eu, quando olhar para eles, provavelmente ainda enxergarei três crianças. Porque filhos crescem. Pais envelhecem. Mas certas mãos nunca se soltam completamente.

Amo vocês, meus filhos! Nesse Dia dos Pais, quero homenagear vocês que me fizeram pai.

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Eu sempre gostei de “Cordilheira”. Só não tinha entendido o que ela queria me dizer https://blogdohercules.com.br/eu-sempre-gostei-de-cordilheira-so-nao-tinha-entendido-o-que-ela-queria-me-dizer/ https://blogdohercules.com.br/eu-sempre-gostei-de-cordilheira-so-nao-tinha-entendido-o-que-ela-queria-me-dizer/#respond Tue, 28 Jul 2026 00:29:51 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=73 Uma das mais belas canções imortalizadas na voz de Simone esconde uma letra inquietante. Censurada durante a ditadura militar, “Cordilheira”, de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro, fala de poder, violência, juventude, religião e do eterno dilema de combater o mal sem se tornar parte dele.

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Imortalizada na voz de Simone, a canção de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro passou anos enfrentando a censura da ditadura. Décadas depois, fui tentar entender a violência escondida em uma das melodias mais bonitas da música brasileira.

Sempre gostei muito de “Cordilheira”, na voz de Simone. Da melodia, sobretudo. Há alguma coisa naquela música que me pega desde as primeiras notas e vai crescendo junto com a interpretação dela. Mas a letra sempre me causou certo incômodo. Eu entendia as palavras, evidentemente, reconhecia a força das imagens, mas nunca tinha conseguido compreender exatamente o que Sueli Costa e Paulo César Pinheiro queriam dizer.

Talvez seja justamente esse o segredo de “Cordilheira”. É uma música belíssima que nos obriga a conviver com imagens terríveis. Fala de cordilheiras desabando sobre flores inocentes, de jovens submetidos aos mais velhos, de comandantes e soldados, de suicidas caminhando para a morte, de Judas, de Jesus crucificado e de Marte, o deus da guerra. Tudo isso embalado por uma melodia de uma beleza impressionante e, na gravação de Simone, por uma interpretação que transforma a canção em algo quase solene.

Resolvi então fazer aquilo que nunca tinha feito: pesquisar a história da música e tentar entender melhor a letra. E descobri que meu incômodo fazia algum sentido.

Uma música que a ditadura não queria ouvir

“Cordilheiras” é uma parceria de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro. E a relação da música com a censura não é uma interpretação feita hoje, olhando retrospectivamente para uma letra dos anos 1970.

Paulo César Pinheiro contou, em entrevista ao jornal A Nova Democracia, que “Cordilheira” ficou cinco anos presa em uma gaveta da censura. Segundo ele, as tentativas de conseguir uma explicação transformavam o compositor numa espécie de “bola de ping-pong” dentro do prédio da Polícia Federal, em Brasília, sendo encaminhado de um censor para outro. Na mesma entrevista, Paulo César explica algo fundamental para entender não apenas essa música, mas boa parte da produção artística daquele período: diante da censura, os compositores escreviam por meio de metáforas, tentando encontrar maneiras de fazer a mensagem passar.

A documentação histórica confirma que “Cordilheira”, como aparece registrada no processo, efetivamente enfrentou uma longa batalha com os censores. Em pesquisa acadêmica sobre a censura musical durante o regime militar, a historiadora Cecília Riquino Heredia analisou processos da antiga Divisão de Censura de Diversões Públicas, a DCDP. Entre eles está justamente o de “Cordilheira”, de Paulo César Pinheiro e Sueli Costa.

A música foi vetada em 1976. Houve pedidos de reconsideração e novos recursos nos anos seguintes. Em um dos pareceres, segundo a pesquisa, os censores enxergaram na composição elementos que, considerados em conjunto, poderiam caracterizar conteúdo político subversivo. Gravadora e editora insistiram na liberação. Em 1977 houve novo recurso. Em 1978, outra tentativa. Finalmente, em 1979, em pleno processo de abertura política, a canção foi liberada. É difícil conhecer essa história e continuar ouvindo a letra da mesma maneira.

Cordilheiras contra flores

A imagem que abre a música talvez contenha a chave de tudo: uma força colossal desabando sobre algo pequeno, inocente e rasteiro.

De um lado, as cordilheiras. Do outro, as flores.

Não acho necessário transformar cada verso em uma charada política e procurar qual general, qual governo ou qual episódio histórico estaria escondido atrás de cada palavra. A poesia perderia muito de sua força se fizéssemos isso. Mas também seria impossível ignorar o contexto em que Paulo César Pinheiro escreveu sobre comandantes, soldados, juventude, poder, estandartes e Marte.

A relação é sempre desigual. Existe quem manda e quem obedece. Quem determina e quem é sacrificado. Quem possui a força das montanhas e quem tem a fragilidade das flores.

Talvez por isso um dos versos que mais me chamam a atenção seja aquele que fala dos jovens submetidos ao poder dos mais velhos. Lido no Brasil da década de 1970, ele ganha uma dimensão evidente. Era uma geração jovem vivendo sob um regime comandado por homens que decidiam não apenas os destinos políticos do país, mas também, como a própria história de “Cordilheira” demonstra, quais palavras poderiam ou não ser cantadas.

E há uma ironia nisso tudo: os censores talvez tenham compreendido muito bem a música que tentavam impedir que os outros compreendessem.

Judas sobe. Jesus continua sendo crucificado

Mas “Cordilheira” vai muito além da política. Há uma dimensão religiosa na letra que sempre me intrigou. Paulo César Pinheiro mistura evangelhos, Judas Iscariotes, Jesus crucificado, estandartes e Marte, o deus romano da guerra. Cristianismo, poder e militarismo aparecem quase dentro de uma mesma liturgia.

A imagem da ascensão de Iscariotes é particularmente perturbadora. Judas é o personagem que a tradição cristã transformou no grande símbolo da traição. Na lógica habitual da narrativa, ele deveria cair. Em “Cordilheiras”, acontece o contrário: ele ascende. Enquanto isso, Jesus continua sendo crucificado.

E não apenas no Calvário. A imagem criada pela música multiplica a crucificação pelo espaço cotidiano. É possível ler isso como uma inversão moral assustadoramente atual: os traidores prosperam enquanto os inocentes continuam sendo sacrificados.

Talvez esteja aí uma das razões pelas quais a música sobrevive tão bem ao contexto histórico em que nasceu. A ditadura ajuda a compreender “Cordilheiras”, mas não consegue aprisioná-la nos anos 1970.

Para destruir o mal, é preciso tornar-se cruel?

Há ainda outro trecho que, para mim, é o mais desconcertante de toda a composição. É quando o personagem admite a própria crueldade porque deseja descobrir onde nasce o mal e destruir sua origem. Aqui aparece uma contradição extraordinária. Se eu me torno cruel para destruir a crueldade, o que me diferencia daquilo que estou combatendo?

Talvez seja essa uma das grandes perguntas escondidas na música. Regimes autoritários, guerras, perseguições e até fanatismos frequentemente começam com uma justificativa moral: existe um mal que precisa ser eliminado. Em nome dessa missão, admite-se a violência. Depois outra. Depois mais uma. Até que aquele que pretendia combater o mal passa a utilizar os mesmos mecanismos que dizia combater.

É por isso que hoje tenho dificuldade de enxergar “Cordilheira” apenas como uma canção contra a ditadura militar. Ela nasceu naquele ambiente, foi perseguida por aquele regime e carrega marcas evidentes daquele Brasil. Mas sua pergunta é muito maior: o que acontece quando alguém se considera tão certo sobre o bem que passa a acreditar ter o direito de praticar o mal?

Sueli Costa foi pessoalmente atrás dos censores

Há um episódio delicioso, se é possível usar essa palavra para falar de censura, contado pela própria Sueli Costa. Em depoimento publicado pelo Museu de Arte Murilo Mendes, ela recorda que “Cordilheira” lhe trouxe enormes problemas e que chegou a viajar com Paulo César Pinheiro para Brasília para tentar descobrir o que estava acontecendo com a música.

Diante de um chefe da censura, Sueli fez uma pergunta de uma lógica quase irresistível: se ela vivia de fazer música, precisava saber o que havia de errado naquela composição para conseguir saber o que poderia escrever dali em diante. Enquanto ela argumentava, Paulo César, segundo sua lembrança, pisava em seu pé tentando fazê-la moderar a conversa.

O depoimento de Sueli traz uma curiosidade. Sua memória sobre os trâmites burocráticos é diferente em alguns aspectos daquilo que posteriormente foi encontrado nos arquivos da censura. Ela relata ter recebido, em determinado momento, a informação de que a música sequer estaria formalmente censurada. Já a pesquisa histórica de Cecília Heredia encontrou o processo censório, os vetos e os sucessivos recursos.

Memória e documento nem sempre contam uma história exatamente da mesma maneira. Mas ambos revelam o essencial: “Cordilheira” atravessou uma batalha para conseguir chegar ao público.

E então veio Simone

A música finalmente apareceu em 1979 no álbum Pedaços, de Simone. O próprio site oficial da cantora registra “Cordilheira” como composição de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro. E que disco.

Pedaços reúne Chico Buarque, Milton Nascimento, Fernando Brant, Ivan Lins, Vítor Martins, Fátima Guedes, Maurício Tapajós e outros grandes nomes da música brasileira. É o disco de “Começar de Novo”, “Sob Medida”, “Tô Voltando”, “Pedaço de Mim” e “Cordilheira”.

A gravação de Simone fez algo extraordinário com a composição. Uma letra dessas poderia facilmente se transformar em um manifesto musical, datado pelo próprio contexto político. Não aconteceu. Na voz dela, a violência das palavras e a beleza da música caminham juntas. Simone não precisa gritar a denúncia. Ela canta. E talvez por isso a denúncia fique ainda mais forte.

No final, os fragmentos vão retornando e se acumulando: as flores, a morte, os jovens, os soldados, a juventude, Jesus crucificado. A sensação que tenho é de que aquilo que a letra anunciou no começo finalmente acontece: a cordilheira começa a desabar. E nós estamos lá embaixo.

Quase cinquenta anos depois

Talvez agora eu finalmente entenda por que sempre gostei tanto de “Cordilheiras” e, ao mesmo tempo, nunca tenha me sentido inteiramente confortável ouvindo a música. O desconforto faz parte dela.

É uma canção sobre poder escrita de maneira a não entregar facilmente seu significado. É uma música sobre violência envolvida por uma melodia belíssima. Fala do mal e coloca na boca de seu personagem o desejo de ser cruel para destruí-lo. Recorre ao Evangelho ao mesmo tempo em que apresenta um mundo no qual Judas ascende e Cristo continua sendo crucificado.

E nasceu num país em que os próprios autores precisaram bater às portas da censura para perguntar por que aquelas palavras não podiam ser cantadas. Em 1979, finalmente puderam.

E foi então que aconteceu a maior ironia dessa história: a censura tentou impedir que “Cordilheiras” dissesse o que dizia. Simone fez com que o Brasil inteiro a ouvisse.

Talvez seja essa a grande força das cordilheiras. Governos passam, censores desaparecem, documentos acabam nos arquivos. A música fica.

Cordilheira – 1979

(Sueli Costa e Paulo César Pinheiro)

Eu quero ter a sensação das cordilheiras
Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras
Eu quero ver a procissão dos suicidas
Caminhando para a morte pelo bem de nossas vidas

Eu quero crer na solução dos evangelhos
Obrigando os nossos moços ao poder dos nossos velhos
Eu quero ler o coração dos comandantes
Condenando os seus soldados pela orgia dos farsantes

Eu quero apenas ser cruel naturalmente
E descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente
Eu quero apenas ser cruel naturalmente
E descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente

Eu quero ter a sensação das cordilheiras
Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras
Eu quero ser da legião dos grandes mitos
Transformando a juventude num exército de aflitos

Eu quero ver a ascensão de Iscariotes
E no sábado um Jesus crucificado em cada poste
Eu quero ler na sagração dos estandartes
Uma frase escrita a fogo pelo punho de deus Marte

Desabando sobre as flores
Caminhando para a morte
Obrigando os nossos moços
Condenando os seus soldados
Transformando a juventude
Um Jesus crucificado
Eu quero ter a sensação das cordilheiras.

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Volver a los 17: a música que nos pergunta o quanto de nós ainda não envelheceu https://blogdohercules.com.br/volver-a-los-17-a-musica-que-nos-pergunta-o-quanto-de-nos-ainda-nao-envelheceu/ https://blogdohercules.com.br/volver-a-los-17-a-musica-que-nos-pergunta-o-quanto-de-nos-ainda-nao-envelheceu/#respond Tue, 07 Jul 2026 15:37:14 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=70 Volver a los 17, de Violeta Parra, tornou-se inesquecível na voz de Mercedes Sosa. Uma canção sobre o amor e a capacidade de recuperar, depois de uma vida inteira, a sensibilidade, a esperança e o encantamento da juventude. Neste texto, uma leitura pessoal, social e espiritual de uma das mais belas canções latino-americanas.

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Há músicas de que gostamos. Há músicas que admiramos. E há aquelas que, por alguma razão difícil de explicar, nos atingem em um lugar muito mais profundo. Volver a los 17 é uma delas para mim. Talvez tenha relação com minha visão de mundo, com minha preocupação permanente com a justiça social, com a desigualdade e com aqueles que quase sempre ficam à margem. Talvez seja simplesmente porque, depois de certa idade, começamos a compreender melhor o que significa olhar para trás e perceber quanto da nossa capacidade de acreditar, de amar e de nos indignar foi sendo testada pelo caminho.

Sempre que ouço Mercedes Sosa cantar Volver a los 17, alguma coisa acontece (e não apenas no meu coração, Caetano).

E há uma primeira descoberta importante por trás dessa emoção: a música não é de Mercedes Sosa. Foi composta pela chilena Violeta Parra, uma das figuras fundamentais da cultura latino-americana, e lançada nos anos 1960. Mercedes a transformaria depois em uma de suas interpretações mais marcantes. Talvez por isso as duas tenham se tornado quase inseparáveis no imaginário de quem conhece a canção. Violeta colocou no papel uma extraordinária reflexão sobre o amor. Mercedes colocou nela uma voz que parece carregar a história inteira de um continente. E há uma versão que, para mim, é simplesmente impagável: Mercedes Sosa cantando ao lado de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa e Milton Nascimento. Cinco vozes extraordinárias reunidas em torno de uma canção que parece resumir muito do que há de mais profundo na alma latino-americana.

O primeiro verso já contém praticamente uma filosofia de vida: “Volver a los diecisiete después de vivir un siglo”. Voltar aos 17 depois de viver um século.

Violeta evidentemente não está falando de idade. Está falando da possibilidade de recuperar algo que o tempo costuma retirar de nós. Aos 17 anos ainda acreditamos com uma intensidade que depois aprendemos a controlar. Amamos sem conhecer inteiramente as consequências. Sofremos como se a dor fosse definitiva. Indignamo-nos como se todas as injustiças pudessem ser corrigidas. O tempo nos ensina muito, mas cobra seu preço. Aprendemos a desconfiar, a relativizar, a criar defesas. Ficamos mais experientes e, algumas vezes, também mais duros.

O extraordinário de Volver a los 17 é afirmar que o amor pode fazer o caminho inverso. Não apagar aquilo que vivemos, mas devolver a capacidade de sentir que tínhamos antes de tantas cicatrizes. E talvez seja justamente aí que a canção deixe de ser apenas uma música sobre o amor entre duas pessoas.

Violeta Parra pertence a uma tradição artística latino-americana na qual vida, cultura popular, sofrimento e consciência social dificilmente podem ser separados. Sua obra ajudou a preparar o terreno para a Nueva Canción Chilena, movimento que transformaria a música popular também em instrumento de identidade, resistência e reflexão política. Mercedes Sosa faria algo semelhante na Argentina e se tornaria uma das maiores vozes da Nueva Canción latino-americana.

Por isso, quando Mercedes canta Violeta, é quase impossível ouvir apenas uma história de amor. Existe ali o amor pelo outro, certamente. Mas é possível ouvir também o amor pelo ser humano, pelo povo, pela dignidade e pela possibilidade de um mundo diferente. Não porque a letra faça um discurso político explícito. Não faz. Sua força está justamente em algo mais profundo: ela fala da capacidade de continuar sensível.

E talvez não exista verdadeira luta por justiça social sem essa sensibilidade. Podemos discutir ideologias, governos, sistemas econômicos e políticas públicas. Tudo isso é necessário. Mas existe alguma coisa anterior à política: a capacidade de olhar para o sofrimento de outra pessoa e não considerá-lo normal. A indignação diante da injustiça nasce primeiro de uma reação humana. Alguma coisa dentro de nós diz que aquilo não deveria acontecer.

Nesse sentido, conservar alguma coisa dos 17 anos talvez seja também uma atitude política. Não a ingenuidade. Não a incapacidade de compreender a complexidade do mundo. Mas aquela recusa juvenil em aceitar que a desigualdade, a fome, a violência e a humilhação sejam simplesmente parte inevitável da paisagem.

Há ainda uma dimensão da música que me toca particularmente: a espiritual.

Em determinado momento, Violeta compara a profundidade desse sentimento à de uma criança diante de Deus. A imagem é belíssima porque aproxima o amor de uma experiência que não pode ser inteiramente explicada pela razão. A criança diante do mistério não domina conceitos teológicos. Ela simplesmente se entrega ao assombro.

E isso tem uma proximidade impressionante com uma ideia central do cristianismo. No Evangelho, Jesus coloca a criança como referência para aqueles que desejam entrar no Reino de Deus. Não se trata de infantilidade. Trata-se de confiança, abertura e ausência daquele cinismo que tantas vezes confundimos com maturidade.

Sob essa perspectiva, voltar aos 17 pode ser lido quase como uma conversão.

Não uma conversão religiosa no sentido institucional, mas aquilo que a tradição cristã chama de metanoia: uma transformação profunda da maneira de olhar, sentir e viver. O amor quebra nossas defesas e nos devolve a vulnerabilidade. E a vulnerabilidade, embora costume ser tratada como fraqueza, ocupa um lugar central no cristianismo. O Deus cristão não se revela pelo poder de um imperador, mas pela fragilidade de uma criança e, mais tarde, pela vulnerabilidade extrema de um homem crucificado.

Há algo ainda mais bonito nessa aproximação entre amor humano e experiência espiritual. O cristianismo afirma que não é possível separar completamente o amor a Deus do amor ao outro. A Primeira Carta de João chega a formular isso de maneira radical: quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus, a quem não vê.

De repente, Volver a los 17 ganha outra dimensão.

O amor que nos devolve a juventude interior também pode nos devolver a capacidade de enxergar o outro. E talvez aí se encontrem coisas que muitas vezes tratamos separadamente: amor, fé e justiça social.

A fé que não percebe o sofrimento humano corre o risco de se transformar apenas em rito. A política que perde a capacidade de amar o ser humano pode virar simplesmente disputa pelo poder. E o amor que se fecha exclusivamente em duas pessoas talvez ignore que fazemos parte de algo muito maior.

É por isso que considero Volver a los 17 uma música profundamente espiritual sem precisar ser uma música religiosa. Ela fala de uma espécie de ressurreição interior.

Depois de viver “um século”, depois das perdas, das decepções, das injustiças testemunhadas e das certezas que a vida se encarregou de destruir, ainda existe a possibilidade de alguma coisa nascer novamente dentro de nós.

Talvez seja isso que me emocione tanto quando ouço Mercedes Sosa.

Aquela voz grave, enorme, carregada de história, não parece pedir que voltemos literalmente à juventude. Ela parece fazer uma pergunta muito mais difícil: depois de tudo o que você viveu, quanto daquele jovem de 17 anos ainda existe dentro de você?

Não sei se gostaria de voltar aos meus 17 anos. Provavelmente não. Aliás, definitivamente não. A experiência também tem suas recompensas, e algumas delas só chegam com o tempo.

Mas gostaria de chegar ao fim da vida conservando algumas coisas daquele rapaz: a capacidade de me indignar diante de uma injustiça, de acreditar que determinadas coisas ainda podem mudar, de me emocionar com uma música e, principalmente, de não considerar ingenuidade aquilo que talvez seja uma das formas mais profundas de resistência.

Continuar acreditando no ser humano. Talvez Violeta Parra tenha compreendido isso muito antes de nós.

Há coisas que o tempo envelhece. O amor, quando é verdadeiro, faz o contrário.

Volver A Los 17 (1966)

(Violeta Parra)

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo

Es como descifrar signos sin ser sabio competente,

Volver a ser de repente tan frágil como un segundo

Volver a sentir profundo como un niño frente a dios

Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando

Como en el muro la hiedra

Y va brotando, brotando

Como el musguito en la piedra

Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avance

El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido

Con todo su colorido se ha paseado por mis venas

Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino

Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Se va enredando, enredando

Como en el muro la hiedra

Y va brotando, brotando

Como el musguito en la piedra

Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber

Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento

Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente

Nos aleja dulcemente de rencores y violencias

Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

Se va enredando, enredando

Como en el muro la hiedra

Y va brotando, brotando

Como el musguito en la piedra

Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

El amor es torbellino de pureza original

Hasta el feroz animal susurra su dulce trino

Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,

El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño

Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

Se va enredando, enredando

Como en el muro la hiedra

Y va brotando, brotando

Como el musguito en la piedra

Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

De par en par la ventana se abrió como por encanto

Entró el amor con su manto como una tibia mañana

Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín

Volando cual serafín al cielo le puso aretes

Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

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A Terceira Guerra Mundial pode começar sem que ninguém queira começá-la https://blogdohercules.com.br/a-terceira-guerra-mundial-pode-comecar-sem-que-ninguem-queira-comeca-la/ https://blogdohercules.com.br/a-terceira-guerra-mundial-pode-comecar-sem-que-ninguem-queira-comeca-la/#respond Wed, 10 Jun 2026 00:43:40 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=51 Olhando para o atual cenário da política mundial, lembrei de Nunca, de Ken Follett, com uma sensação incômoda. Não porque o livro imagine um ditador enlouquecido disposto a destruir o mundo, nem porque apresente algum plano secreto para iniciar uma guerra nuclear. O que incomoda é justamente o contrário. Ao longo de mais de 700...

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Olhando para o atual cenário da política mundial, lembrei de Nunca, de Ken Follett, com uma sensação incômoda. Não porque o livro imagine um ditador enlouquecido disposto a destruir o mundo, nem porque apresente algum plano secreto para iniciar uma guerra nuclear. O que incomoda é justamente o contrário. Ao longo de mais de 700 páginas, Follett constrói a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial provocada por pessoas que, em sua maioria, não querem uma guerra. Pessoas que tomam decisões que parecem razoáveis, respondem a agressões, calculam riscos, tentam preservar seus países e, pouco a pouco, aproximam o mundo de um ponto do qual talvez não seja mais possível voltar.

Foi isso que mais me impressionou no livro. A guerra não aparece como resultado de uma única decisão catastrófica. Ela vai sendo construída. Uma ação exige uma resposta. A resposta é interpretada como provocação. Vem uma retaliação. O adversário considera que não pode demonstrar fraqueza e reage novamente. Em algum momento, já nem importa tanto descobrir quem começou. Importa que ninguém sabe mais como terminar.

Follett teve a ideia de escrever Nunca depois de pesquisar a Primeira Guerra Mundial para outro de seus romances, A Queda dos Gigantes. Ao estudar 1914, ficou intrigado com uma constatação histórica: os líderes das grandes potências europeias não acordaram certa manhã decididos a provocar uma guerra mundial. Ao contrário, muitos acreditavam que poderiam controlar os acontecimentos. Houve alianças, mobilizações militares, ultimatos, cálculos equivocados e decisões que faziam sentido dentro da lógica de cada país. O resultado foi uma guerra que matou milhões de pessoas.

A pergunta que Follett transportou para o século XXI é aterradora justamente por sua simplicidade: e se acontecer novamente?

A pergunta se torna ainda mais incômoda quando olhamos para o mundo de hoje. Donald Trump está novamente à frente dos Estados Unidos; Vladimir Putin conduz a Rússia em uma guerra iniciada com a invasão da Ucrânia; Xi Jinping comanda uma China cada vez mais assertiva em torno de Taiwan; Kim Jong Un mantém a Coreia do Norte como potência nuclear em permanente tensão com seus vizinhos; e Benjamin Netanyahu lidera Israel em meio a uma guerra devastadora em Gaza e a um Oriente Médio marcado pelo risco constante de ampliação dos conflitos. São líderes, países e circunstâncias muito diferentes. Mas todos fazem parte de um sistema internacional no qual uma decisão militar provoca outra, alianças entram em jogo, ameaças são respondidas com demonstrações de força e um erro de cálculo pode produzir consequências muito maiores do que aquelas imaginadas por quem tomou a primeira decisão. De repente, a hipótese construída por Follett já não parece pertencer apenas à ficção.

Histórias que parecem não ter relação

A construção de Nunca ajuda a tornar essa pergunta ainda mais perturbadora. Follett espalha seus personagens pelo mundo e, no início, temos quase a impressão de estar acompanhando romances diferentes.

Na África, especialmente no Chade e na região do Saara, aparecem terrorismo, tráfico de drogas, migração, pobreza, serviços de inteligência e disputas locais. Nos Estados Unidos, acompanhamos a presidente Pauline Green diante de decisões que envolvem segurança nacional, política interna e o delicado equilíbrio entre responder a uma agressão e impedir que a resposta produza algo ainda pior. Na China, conhecemos as disputas dentro do próprio regime, as diferentes visões sobre a relação com os Estados Unidos e o papel explosivo da Coreia do Norte. Europa e outras regiões entram progressivamente nesse enorme tabuleiro.

São lugares distantes, personagens que não se conhecem e problemas que, à primeira vista, pertencem a realidades completamente diferentes.

Mas Follett vai aproximando essas histórias. Uma crise aparentemente regional na África provoca consequências em outro país. Uma decisão tomada em Washington altera os cálculos feitos em Pequim. Uma reação chinesa modifica a percepção americana. A Coreia do Norte acrescenta uma nova variável. Governos aliados precisam escolher de que lado ficar. Cada movimento altera o seguinte. Até que percebemos que aquelas histórias nunca estiveram realmente separadas.

Talvez esteja aí uma das grandes qualidades de Nunca. O livro reproduz em sua própria estrutura a maneira como funciona um mundo globalizado. Temos a tendência de olhar para um conflito no Sahel como um problema africano, para uma provocação da Coreia do Norte como um problema asiático e para uma disputa entre Estados Unidos e China como uma questão entre duas superpotências. Follett vai desmontando essa ilusão.

Em Nunca, a Terceira Guerra Mundial não começa em um lugar. Ela começa quando acontecimentos que pareciam não ter relação passam a fazer parte da mesma história.

Ninguém quer parecer fraco

Existe ainda outro mecanismo que percorre o romance inteiro e que talvez seja ainda mais atual: o medo de demonstrar fraqueza.

Um governo pode concluir que a melhor decisão seria não responder a determinada provocação. Mas o que acontecerá se o adversário interpretar o silêncio como fraqueza? E os aliados? Continuarão acreditando que aquele país será capaz de defendê-los? E a oposição interna? Como explicar à população que não reagir pode ser, naquele momento, a atitude mais corajosa?

É assim que uma decisão aparentemente racional começa a produzir a próxima.

O mais interessante é que Follett evita a saída fácil de colocar um louco no comando de uma potência nuclear. Seria reconfortante. Bastaria acreditar que, enquanto pessoas equilibradas governassem as grandes potências, estaríamos protegidos.

Nunca propõe algo muito mais assustador: e se pessoas sensatas também forem capazes de produzir uma catástrofe?

Não porque desejem provocá-la, mas porque cada uma delas dispõe apenas de uma parte das informações, sofre pressões diferentes e precisa antecipar aquilo que imagina que o adversário fará. Um erro de interpretação, uma informação incompleta ou uma resposta considerada excessiva pelo outro lado pode mudar toda a equação.

O mundo de 1914 não está tão distante

É impossível ler o livro sem pensar na Primeira Guerra Mundial. Depois do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, em junho de 1914, uma crise inicialmente localizada entre Áustria-Hungria e Sérvia acionou uma sucessão de alianças, mobilizações e decisões políticas. Poucas semanas depois, boa parte da Europa estava em guerra.

Quando olhamos para trás, conhecendo o resultado, é tentador perguntar como ninguém percebeu o que estava acontecendo. Mas eles não conheciam o resultado.

Essa talvez seja uma das reflexões mais interessantes que Nunca provoca. Nós também não conhecemos.

Vivemos olhando para acontecimentos isolados e tentando interpretá-los individualmente. Uma guerra aqui. Uma provocação militar ali. Uma disputa territorial do outro lado do planeta. Uma potência que reage. Outra que responde. Quase sempre existe uma explicação racional para cada movimento quando ele é analisado separadamente.

O problema começa quando juntamos as peças. E Follett é particularmente habilidoso nisso. À medida que o romance avança, as alternativas dos personagens parecem diminuir. No início, existem muitas possibilidades. Depois, determinadas decisões fecham algumas portas. Outras respostas fecham mais algumas. Até chegar à situação em que todas as escolhas disponíveis carregam riscos enormes.

O leitor percebe o perigo antes de conseguir enxergar uma saída.

Nunca?

Há uma ironia extraordinária no título escolhido por Ken Follett.

Nunca.

É uma palavra que expressa uma espécie de segurança coletiva. Depois de duas guerras mundiais, Hiroshima, Nagasaki e décadas convivendo com armas capazes de destruir o planeta, queremos acreditar que aprendemos. Que existem organismos internacionais, diplomacia, canais de comunicação e mecanismos suficientes para impedir que as grandes potências atravessem novamente determinados limites. Nunca mais.

Mas Follett passa o livro inteiro colocando um ponto de interrogação depois dessa palavra. Nunca?

Talvez por isso o romance permaneça na cabeça depois que terminamos a leitura. Ele não nos pede apenas que imaginemos como seria uma Terceira Guerra Mundial. Faz uma pergunta muito mais desconfortável: como saberíamos que ela está começando?

Provavelmente não haveria uma manchete anunciando: “Hoje começou a Terceira Guerra Mundial”. Haveria uma crise regional, uma retaliação, uma resposta considerada necessária, uma ameaça, uma mobilização militar, uma tentativa de demonstrar força. Cada acontecimento seria explicado individualmente e cada governante teria argumentos para justificar sua decisão.

Até que, em determinado momento, alguém olharia para trás e perceberia que as histórias já haviam se encontrado. E talvez essa seja a ideia mais assustadora de Nunca: o maior perigo não é um governante decidir começar a Terceira Guerra Mundial.

É todos chegarem a um ponto em que ninguém mais saiba como impedi-la.

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O gosto da memória https://blogdohercules.com.br/o-gosto-da-memoria/ https://blogdohercules.com.br/o-gosto-da-memoria/#respond Thu, 04 Jun 2026 00:10:00 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=97 Um sabor inesperado trouxe de volta a cozinha da minha avó Priscila, quase cinquenta anos depois. Uma lembrança sobre comida, saudade e os afetos que o tempo não consegue apagar.

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Hoje, na solidão tranquila de um almoço qualquer, fui surpreendido por algo que não se compra nem se planeja: uma lembrança.

Reaproveitei a sobrecoxa que assei na noite anterior, simples, sem grandes pretensões. Coloquei no prato, aqueci, sentei-me à mesa sem pressa. Cortei o primeiro pedaço e, assim que o sabor tocou minha boca, fui transportado. Não para um lugar, mas para um tempo: a cozinha da minha avó Priscila.

Era ela quem, com mãos pacientes e olhar sereno, preparava um frango cozido como poucos. Não havia receita escrita, nem medidas exatas — havia apenas o gesto intuitivo de quem cozinha com a alma. A casa inteira se enchia daquele aroma quente e reconfortante, e nós, crianças ainda, corríamos em volta da mesa, impacientes pelo primeiro pedaço.

Décadas se passaram. Minha avó já não está aqui. A casa, a mesa, as risadas — tudo virou fotografia amarelada pela memória. Mas o gosto… ah, o gosto resistiu ao tempo.

E hoje, sem querer, ele voltou. Num pedaço de frango simples, reencontrei um pedaço dela. E chorei. Chorei de saudade, de ternura, de surpresa. Chorei porque aquele tempero era mais do que uma mistura de sal, alho e cebola — era amor destilado em comida. Era aconchego em forma de sabor.

Dizem que memórias afetivas curam. Eu acredito. Sentir o gosto da infância, ainda que por instantes, costurou dentro de mim um rasgo antigo. Trouxe minha avó para perto, como um abraço silencioso atravessando os anos.

Há coisas que a gente esquece, há outras que moram na pele, no cheiro, no som… e no gosto. Minha avó Priscila partiu há quase cinquenta anos. Mas hoje, ao almoçar sozinho, percebi: ela nunca foi embora de verdade.

Ela ficou. Ficou no frango, na lembrança, na lágrima. Ficou no tempero invisível que atravessa gerações e cozinha a alma da gente sem que a gente perceba.

Dedicado à minha avó Priscila, que temperou minha infância com amor e deixou, em mim, um sabor que o tempo não apaga.

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O que acontece no cérebro quando um cachorro olha nos olhos do tutor? A ciência começa a explicar https://blogdohercules.com.br/o-que-acontece-no-cerebro-quando-um-cachorro-olha-nos-olhos-do-tutor-a-ciencia-comeca-a-explicar/ https://blogdohercules.com.br/o-que-acontece-no-cerebro-quando-um-cachorro-olha-nos-olhos-do-tutor-a-ciencia-comeca-a-explicar/#respond Mon, 18 May 2026 00:20:20 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=48 Estudos mostram que a relação entre humanos e cães ativa mecanismos biológicos semelhantes aos do vínculo entre pais e filhos – e ajuda a entender por que essa conexão pode ser tão profunda Durante muito tempo, a relação entre humanos e cães foi tratada apenas como afeto, companhia ou sensibilidade emocional. Mas a ciência começou...

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Estudos mostram que a relação entre humanos e cães ativa mecanismos biológicos semelhantes aos do vínculo entre pais e filhos – e ajuda a entender por que essa conexão pode ser tão profunda

Durante muito tempo, a relação entre humanos e cães foi tratada apenas como afeto, companhia ou sensibilidade emocional. Mas a ciência começou a demonstrar que existe algo mais profundo acontecendo nessa conexão. Algo mensurável. Biológico. Neurológico.

Hoje, pesquisadores já sabem que o simples ato de um cachorro olhar para o tutor pode desencadear a liberação de ocitocina – hormônio ligado ao apego, à confiança e à sensação de segurança – tanto no cérebro humano quanto no do animal.

O fenômeno foi demonstrado em um estudo publicado em 2015 pela equipe do pesquisador japonês Takefumi Kikusui, da Universidade Azabu, no Japão. A pesquisa mostrou que o contato visual entre cães e tutores cria um “loop de ocitocina”, um mecanismo de retroalimentação emocional semelhante ao observado entre mães e bebês humanos.

Mais do que um detalhe curioso, a descoberta ajudou a consolidar algo que até pouco tempo era visto quase como romantização: o vínculo entre cães e humanos é real do ponto de vista neuroquímico.

“O vínculo cão-humano é um sistema biológico real, mensurável e neuroquimicamente análogo ao vínculo materno-infantil em primatas”, explica Fabiano de Granville Ponce, médico-veterinário e CEO da EloVetNet.

Segundo ele, o estudo japonês revelou algo ainda mais impressionante: lobos criados por humanos não apresentaram o mesmo padrão de resposta hormonal. Isso sugere que os cães desenvolveram essa capacidade ao longo do processo de domesticação.

“O cão não trata qualquer humano como referência afetiva. Ele elege”, afirma o veterinário.

O cérebro entende o cachorro como vínculo afetivo

A ocitocina é frequentemente chamada de “hormônio do amor” ou “hormônio do vínculo”. Ela está associada a relações de confiança, acolhimento e apego emocional. É liberada, por exemplo, na amamentação, no contato físico e em interações afetivas humanas profundas.

Na relação com os cães, o mecanismo parece funcionar de maneira semelhante. “A ocitocina funciona como uma ponte bioquímica que traduz sentimentos em sensações físicas de segurança”, explica a neuropsicóloga Marcia Lenci Viscomi. Segundo ela, o contato visual com o animal ativa no cérebro humano circuitos emocionais ligados à proteção e pertencimento.

“O contato visual dispara o mesmo circuito de afeto existente entre pais e filhos, criando uma conexão profunda e instantânea”, afirma.

A especialista explica que o hormônio também reduz os níveis de cortisol – associado ao estresse – diminuindo o estado de alerta do organismo e gerando sensação física de acolhimento. Além disso, a convivência cotidiana com o animal pode atuar como um regulador emocional silencioso. “Os cães oferecem suporte emocional incondicional e silencioso, permitindo que o tutor se sinta acolhido sem pressão de ter que explicar seus sentimentos”, diz Marcia.

Por que o vínculo pode ser tão intenso

Quem convive com cães costuma reconhecer facilmente alguns comportamentos: o animal que espera na porta, acompanha o tutor pela casa, percebe mudanças emocionais ou reage de maneira diferente à voz da pessoa com quem convive. Hoje, muitos desses comportamentos já são estudados dentro da etologia clínica – área que analisa o comportamento animal.

Fabiano Ponce explica que pesquisas identificaram três grandes marcadores de vínculo afetivo entre cães e humanos: busca seletiva de proximidade, sensação de segurança na presença do tutor e sofrimento ou ansiedade na separação.

Em laboratório, cães demonstraram ficar mais relaxados, explorar mais o ambiente e até brincar com maior tranquilidade quando o tutor estava presente. “A presença do tutor funciona como um amortecedor de estresse”, afirma o veterinário. 

Segundo ele, estudos também registraram alterações fisiológicas objetivas durante a separação, incluindo aumento da frequência cardíaca, elevação do cortisol e sinais associados à ansiedade. “‘Sentir falta’ é uma linguagem coloquial para um fenômeno que tem assinatura neuroendócrina objetiva. Não é interpretação, é evidência mensurável”, explica.

Afeto sem julgamento

Para a neuropsicologia, parte da força desse vínculo está justamente na ausência de julgamento social. “O cão remove as barreiras da linguagem e do julgamento social, permitindo uma conexão pura de apego que remete às nossas necessidades mais básicas de proteção e pertencimento”, afirma Marcia.

Ela cita uma observação atribuída a Sigmund Freud – registrada em cartas pessoais do psicanalista, que tinha o hábito de levar sua cadela Jo-fi para as sessões de análise. “Freud observava que os cães oferecem um tipo de afeto que raramente os humanos conseguem: um amor que não é ambivalente.”

A especialista explica que, nas relações humanas, o afeto normalmente vem acompanhado de expectativas, cobranças, críticas e conflitos. Com os cães, essa dinâmica tende a ser diferente. Isso ajuda a explicar por que, para muitas pessoas, os animais acabam ocupando espaços centrais dentro da estrutura emocional da casa.

Do ponto de vista biológico, o cérebro interpreta a relação como um vínculo afetivo real. Do ponto de vista social, os cães passaram a ocupar funções emocionais importantes em uma sociedade cada vez mais marcada pela solidão, pela ansiedade e pelo isolamento. “Muitas vezes ele atua como regulador de tensões, servindo como ponto de união ou alívio emocional”, afirma Marcia.

Quando o vínculo faz bem

Os benefícios emocionais da convivência com cães aparecem em diferentes fases da vida. Em crianças e adolescentes, a convivência pode estimular empatia, responsabilidade e regulação emocional. Entre idosos, o animal frequentemente ajuda a combater a sensação de isolamento e mantém a rotina ativa. “O cão preenche o silêncio da casa, mitigando a solidão e oferecendo uma presença de afeto constante”, afirma a neuropsicóloga.

Ela também destaca que o cuidado cotidiano cria senso de propósito, previsibilidade e organização emocional. “O fato de existirem horários fixos para alimentar e passear organiza o cotidiano do tutor, trazendo estrutura e previsibilidade emocional.”

Fabiano acrescenta que a qualidade do vínculo interfere inclusive na resposta fisiológica do cão ao estresse. Animais com vínculos considerados seguros tendem a apresentar melhor regulação hormonal e cardiovascular diante de situações de tensão.

O limite entre afeto e dependência

Especialistas alertam, porém, que o vínculo saudável não deve ser confundido com dependência emocional. “Vínculo saudável não é vínculo simbiótico. O apego seguro produz autonomia, não dependência”, afirma Fabiano. Segundo ele, muitos casos de ansiedade de separação em cães surgem justamente de relações excessivamente fusionais, nas quais o animal não aprende a lidar com ausência, autonomia e frustração.

Marcia faz uma observação semelhante. “Na dependência, o afeto vira aprisionamento, e o animal perde sua autonomia biológica enquanto o humano perde sua liberdade social.” Para ela, o equilíbrio está em compreender que o cachorro ocupa um espaço afetivo importante, mas não substitui integralmente relações humanas complexas. “O animal deve somar à vida social, não ser um refúgio para fugir dela”, afirma.

No fim, talvez seja justamente essa combinação entre biologia, afeto e silêncio que torne a relação entre humanos e cães tão singular.

“O equilíbrio nasce de amar o cão pelo que ele é – e não pelo que ele preenche em nós”, conclui Marcia Lenci Viscomi.

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