Eu sempre gostei de “Cordilheira”. Só não tinha entendido o que ela queria me dizer

Imortalizada na voz de Simone, a canção de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro passou anos enfrentando a censura da ditadura. Décadas depois, fui tentar entender a violência escondida em uma das melodias mais bonitas da música brasileira.

Sempre gostei muito de “Cordilheira”, na voz de Simone. Da melodia, sobretudo. Há alguma coisa naquela música que me pega desde as primeiras notas e vai crescendo junto com a interpretação dela. Mas a letra sempre me causou certo incômodo. Eu entendia as palavras, evidentemente, reconhecia a força das imagens, mas nunca tinha conseguido compreender exatamente o que Sueli Costa e Paulo César Pinheiro queriam dizer.

Talvez seja justamente esse o segredo de “Cordilheira”. É uma música belíssima que nos obriga a conviver com imagens terríveis. Fala de cordilheiras desabando sobre flores inocentes, de jovens submetidos aos mais velhos, de comandantes e soldados, de suicidas caminhando para a morte, de Judas, de Jesus crucificado e de Marte, o deus da guerra. Tudo isso embalado por uma melodia de uma beleza impressionante e, na gravação de Simone, por uma interpretação que transforma a canção em algo quase solene.

Resolvi então fazer aquilo que nunca tinha feito: pesquisar a história da música e tentar entender melhor a letra. E descobri que meu incômodo fazia algum sentido.

Uma música que a ditadura não queria ouvir

“Cordilheiras” é uma parceria de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro. E a relação da música com a censura não é uma interpretação feita hoje, olhando retrospectivamente para uma letra dos anos 1970.

Paulo César Pinheiro contou, em entrevista ao jornal A Nova Democracia, que “Cordilheira” ficou cinco anos presa em uma gaveta da censura. Segundo ele, as tentativas de conseguir uma explicação transformavam o compositor numa espécie de “bola de ping-pong” dentro do prédio da Polícia Federal, em Brasília, sendo encaminhado de um censor para outro. Na mesma entrevista, Paulo César explica algo fundamental para entender não apenas essa música, mas boa parte da produção artística daquele período: diante da censura, os compositores escreviam por meio de metáforas, tentando encontrar maneiras de fazer a mensagem passar.

A documentação histórica confirma que “Cordilheira”, como aparece registrada no processo, efetivamente enfrentou uma longa batalha com os censores. Em pesquisa acadêmica sobre a censura musical durante o regime militar, a historiadora Cecília Riquino Heredia analisou processos da antiga Divisão de Censura de Diversões Públicas, a DCDP. Entre eles está justamente o de “Cordilheira”, de Paulo César Pinheiro e Sueli Costa.

A música foi vetada em 1976. Houve pedidos de reconsideração e novos recursos nos anos seguintes. Em um dos pareceres, segundo a pesquisa, os censores enxergaram na composição elementos que, considerados em conjunto, poderiam caracterizar conteúdo político subversivo. Gravadora e editora insistiram na liberação. Em 1977 houve novo recurso. Em 1978, outra tentativa. Finalmente, em 1979, em pleno processo de abertura política, a canção foi liberada. É difícil conhecer essa história e continuar ouvindo a letra da mesma maneira.

Cordilheiras contra flores

A imagem que abre a música talvez contenha a chave de tudo: uma força colossal desabando sobre algo pequeno, inocente e rasteiro.

De um lado, as cordilheiras. Do outro, as flores.

Não acho necessário transformar cada verso em uma charada política e procurar qual general, qual governo ou qual episódio histórico estaria escondido atrás de cada palavra. A poesia perderia muito de sua força se fizéssemos isso. Mas também seria impossível ignorar o contexto em que Paulo César Pinheiro escreveu sobre comandantes, soldados, juventude, poder, estandartes e Marte.

A relação é sempre desigual. Existe quem manda e quem obedece. Quem determina e quem é sacrificado. Quem possui a força das montanhas e quem tem a fragilidade das flores.

Talvez por isso um dos versos que mais me chamam a atenção seja aquele que fala dos jovens submetidos ao poder dos mais velhos. Lido no Brasil da década de 1970, ele ganha uma dimensão evidente. Era uma geração jovem vivendo sob um regime comandado por homens que decidiam não apenas os destinos políticos do país, mas também, como a própria história de “Cordilheira” demonstra, quais palavras poderiam ou não ser cantadas.

E há uma ironia nisso tudo: os censores talvez tenham compreendido muito bem a música que tentavam impedir que os outros compreendessem.

Judas sobe. Jesus continua sendo crucificado

Mas “Cordilheira” vai muito além da política. Há uma dimensão religiosa na letra que sempre me intrigou. Paulo César Pinheiro mistura evangelhos, Judas Iscariotes, Jesus crucificado, estandartes e Marte, o deus romano da guerra. Cristianismo, poder e militarismo aparecem quase dentro de uma mesma liturgia.

A imagem da ascensão de Iscariotes é particularmente perturbadora. Judas é o personagem que a tradição cristã transformou no grande símbolo da traição. Na lógica habitual da narrativa, ele deveria cair. Em “Cordilheiras”, acontece o contrário: ele ascende. Enquanto isso, Jesus continua sendo crucificado.

E não apenas no Calvário. A imagem criada pela música multiplica a crucificação pelo espaço cotidiano. É possível ler isso como uma inversão moral assustadoramente atual: os traidores prosperam enquanto os inocentes continuam sendo sacrificados.

Talvez esteja aí uma das razões pelas quais a música sobrevive tão bem ao contexto histórico em que nasceu. A ditadura ajuda a compreender “Cordilheiras”, mas não consegue aprisioná-la nos anos 1970.

Para destruir o mal, é preciso tornar-se cruel?

Há ainda outro trecho que, para mim, é o mais desconcertante de toda a composição. É quando o personagem admite a própria crueldade porque deseja descobrir onde nasce o mal e destruir sua origem. Aqui aparece uma contradição extraordinária. Se eu me torno cruel para destruir a crueldade, o que me diferencia daquilo que estou combatendo?

Talvez seja essa uma das grandes perguntas escondidas na música. Regimes autoritários, guerras, perseguições e até fanatismos frequentemente começam com uma justificativa moral: existe um mal que precisa ser eliminado. Em nome dessa missão, admite-se a violência. Depois outra. Depois mais uma. Até que aquele que pretendia combater o mal passa a utilizar os mesmos mecanismos que dizia combater.

É por isso que hoje tenho dificuldade de enxergar “Cordilheira” apenas como uma canção contra a ditadura militar. Ela nasceu naquele ambiente, foi perseguida por aquele regime e carrega marcas evidentes daquele Brasil. Mas sua pergunta é muito maior: o que acontece quando alguém se considera tão certo sobre o bem que passa a acreditar ter o direito de praticar o mal?

Sueli Costa foi pessoalmente atrás dos censores

Há um episódio delicioso, se é possível usar essa palavra para falar de censura, contado pela própria Sueli Costa. Em depoimento publicado pelo Museu de Arte Murilo Mendes, ela recorda que “Cordilheira” lhe trouxe enormes problemas e que chegou a viajar com Paulo César Pinheiro para Brasília para tentar descobrir o que estava acontecendo com a música.

Diante de um chefe da censura, Sueli fez uma pergunta de uma lógica quase irresistível: se ela vivia de fazer música, precisava saber o que havia de errado naquela composição para conseguir saber o que poderia escrever dali em diante. Enquanto ela argumentava, Paulo César, segundo sua lembrança, pisava em seu pé tentando fazê-la moderar a conversa.

O depoimento de Sueli traz uma curiosidade. Sua memória sobre os trâmites burocráticos é diferente em alguns aspectos daquilo que posteriormente foi encontrado nos arquivos da censura. Ela relata ter recebido, em determinado momento, a informação de que a música sequer estaria formalmente censurada. Já a pesquisa histórica de Cecília Heredia encontrou o processo censório, os vetos e os sucessivos recursos.

Memória e documento nem sempre contam uma história exatamente da mesma maneira. Mas ambos revelam o essencial: “Cordilheira” atravessou uma batalha para conseguir chegar ao público.

E então veio Simone

A música finalmente apareceu em 1979 no álbum Pedaços, de Simone. O próprio site oficial da cantora registra “Cordilheira” como composição de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro. E que disco.

Pedaços reúne Chico Buarque, Milton Nascimento, Fernando Brant, Ivan Lins, Vítor Martins, Fátima Guedes, Maurício Tapajós e outros grandes nomes da música brasileira. É o disco de “Começar de Novo”, “Sob Medida”, “Tô Voltando”, “Pedaço de Mim” e “Cordilheira”.

A gravação de Simone fez algo extraordinário com a composição. Uma letra dessas poderia facilmente se transformar em um manifesto musical, datado pelo próprio contexto político. Não aconteceu. Na voz dela, a violência das palavras e a beleza da música caminham juntas. Simone não precisa gritar a denúncia. Ela canta. E talvez por isso a denúncia fique ainda mais forte.

No final, os fragmentos vão retornando e se acumulando: as flores, a morte, os jovens, os soldados, a juventude, Jesus crucificado. A sensação que tenho é de que aquilo que a letra anunciou no começo finalmente acontece: a cordilheira começa a desabar. E nós estamos lá embaixo.

Quase cinquenta anos depois

Talvez agora eu finalmente entenda por que sempre gostei tanto de “Cordilheiras” e, ao mesmo tempo, nunca tenha me sentido inteiramente confortável ouvindo a música. O desconforto faz parte dela.

É uma canção sobre poder escrita de maneira a não entregar facilmente seu significado. É uma música sobre violência envolvida por uma melodia belíssima. Fala do mal e coloca na boca de seu personagem o desejo de ser cruel para destruí-lo. Recorre ao Evangelho ao mesmo tempo em que apresenta um mundo no qual Judas ascende e Cristo continua sendo crucificado.

E nasceu num país em que os próprios autores precisaram bater às portas da censura para perguntar por que aquelas palavras não podiam ser cantadas. Em 1979, finalmente puderam.

E foi então que aconteceu a maior ironia dessa história: a censura tentou impedir que “Cordilheiras” dissesse o que dizia. Simone fez com que o Brasil inteiro a ouvisse.

Talvez seja essa a grande força das cordilheiras. Governos passam, censores desaparecem, documentos acabam nos arquivos. A música fica.

Cordilheira – 1979

(Sueli Costa e Paulo César Pinheiro)

Eu quero ter a sensação das cordilheiras
Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras
Eu quero ver a procissão dos suicidas
Caminhando para a morte pelo bem de nossas vidas

Eu quero crer na solução dos evangelhos
Obrigando os nossos moços ao poder dos nossos velhos
Eu quero ler o coração dos comandantes
Condenando os seus soldados pela orgia dos farsantes

Eu quero apenas ser cruel naturalmente
E descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente
Eu quero apenas ser cruel naturalmente
E descobrir onde o mal nasce e destruir sua semente

Eu quero ter a sensação das cordilheiras
Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras
Eu quero ser da legião dos grandes mitos
Transformando a juventude num exército de aflitos

Eu quero ver a ascensão de Iscariotes
E no sábado um Jesus crucificado em cada poste
Eu quero ler na sagração dos estandartes
Uma frase escrita a fogo pelo punho de deus Marte

Desabando sobre as flores
Caminhando para a morte
Obrigando os nossos moços
Condenando os seus soldados
Transformando a juventude
Um Jesus crucificado
Eu quero ter a sensação das cordilheiras.

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