Por que a gente nunca se cansa de pão de queijo?
Onde eu trabalho tem pão de queijo todos os dias. De manhã e à tarde. Não é benefício trabalhista, não está previsto em contrato e, até onde sei, ninguém incluiu a iguaria na política de recursos humanos da empresa. A responsável é a Mariana, a dona, que é mineira. E Mariana leva pão de queijo a sério.
Tão a sério que instalou uma air fryer no escritório para garantir pão de queijo quente para o pessoal duas vezes por dia. Em algum momento da manhã, e depois novamente à tarde, aquele cheiro começa a circular pelo ambiente. E pelo andar inteiro do prédio. É difícil ignorar. Mais difícil ainda é resistir.
Foi provavelmente numa dessas fornadas que comecei a pensar numa questão aparentemente banal: por que será que o brasileiro gosta tanto de pão de queijo?
Existem algumas respostas bastante óbvias. Porque é gostoso, claro. Porque combina maravilhosamente com café. Porque tem cheiro de casa, de café da manhã, de viagem, de padaria. Porque para muita gente carrega lembranças de infância, da mãe, da avó, de Minas Gerais. Porque pode ser comido de manhã, à tarde ou naquela hora em que você simplesmente passa por uma cesta e resolve pegar um.
Mas comecei a desconfiar de que existe outra razão, menos evidente e, para mim, muito mais interessante: pão de queijo nunca é igual.
Você pode ter comido mil pães de queijo na vida e ainda assim alguém consegue despertar sua curiosidade simplesmente dizendo: “Experimenta esse.”
E você experimenta.
Porque existe o pão de queijo pequeno e mais sequinho, o grande e macio, o que tem uma casquinha crocante e o que praticamente desmancha na boca. Existe aquele em que o queijo domina completamente e aquele em que o polvilho aparece mais. Tem o que estica quando você morde, o que é mais aerado, o que tem o interior úmido, o que é mais pesado. Muda o queijo, muda o polvilho, muda a proporção, muda o forno, muda a mão de quem faz.
E todos continuam sendo pão de queijo. Talvez esteja justamente aí uma parte importante do fascínio. A gente sabe o que vai comer, mas nunca sabe exatamente como será.
É diferente de muitos alimentos cuja excelência está associada à repetição. Você volta a determinado lugar querendo encontrar exatamente aquele sabor de que se lembra. Com o pão de queijo existe também o prazer da descoberta. Você quer saber como é “aquele” pão de queijo.
E depois começa uma das atividades preferidas de quem gosta do assunto: comparar.
“Esse tem pouco queijo.”
“Esse está borrachudo.”
“O daquele lugar é melhor.”
“Você precisava experimentar um que eu comi em Minas.”
“Minha mãe faz diferente.”
“Minha avó fazia um que…”
Todo mundo que gosta de pão de queijo acaba se transformando, em algum momento, em crítico especializado de pão de queijo. E, sem perceber, vai montando um ranking particular. Existe o melhor da padaria, o melhor da estrada, o melhor congelado, o melhor de Minas, o melhor que alguém trouxe para o trabalho e, principalmente, aquele mítico “melhor pão de queijo que já comi na vida”.
Até que aparece outro.
É uma relação que me lembra um pouco o vinho. Ninguém que gosta de vinho diz: “Já tomei Cabernet Sauvignon, portanto não preciso experimentar outro.” Parte da graça está justamente nas diferenças. Existe uma identidade que permite reconhecer aquilo, mas dentro dela cabe um universo de possibilidades.
Com o pão de queijo acontece algo parecido, guardadas, evidentemente, as devidas proporções. E antes que algum enófilo mais ortodoxo se revolte com a comparação.
Agora, toda liberdade precisa ter limites.
E aqui chegamos a uma questão na qual provavelmente perderei o apoio de parte dos leitores: sou contra pão de queijo recheado.
Nutella? Não.
Doce de leite? Não.
Frango? Também não.
Calabresa, carne seca ou qualquer outra coisa que alguém resolva enfiar lá dentro? Continuo no não.
Não estou dizendo que seja ruim. Pode ser delicioso. Pode vender milhares. Pode virar febre nas redes sociais. Cada um come o que quiser. Minha questão é outra: não chame de pão de queijo.
Para explicar minha implicância, lembro de uma conversa com minha filha. Um dia a Manu chegou toda animada:
“Pai, fiz um bolo sem farinha, sem ovo, sem açúcar e sem leite.”
Olhei para ela e respondi:
“Então não é bolo. É outra coisa.”
É mais ou menos o que penso de pão de queijo com Nutella. Se você pega uma coisa que é pão de queijo, abre, coloca Nutella dentro e transforma aquilo em outra experiência gastronômica, tudo bem. Só que, para mim, virou outro negócio qualquer. Pão de queijo não pode ser.
Faço uma concessão ao requeijão. Talvez por corporativismo lácteo. O requeijão ainda pertence à família, conversa com o queijo, conhece os parentes e pode frequentar a festa. Passou disso, considero descaracterização.
E talvez pareça contraditório defender ao mesmo tempo que a graça do pão de queijo está justamente na enorme variedade de receitas e depois querer estabelecer uma fronteira. Para mim, não é.
Pode mudar o queijo. Pode mudar o polvilho. Pode ser crocante, macio, grande, pequeno, aerado, pesado, mais salgado, mais suave. Pode ser a receita centenária de uma família mineira ou aquele congelado do supermercado que, para surpresa geral, ficou espetacular na air fryer.
A graça está justamente em descobrir quantas coisas diferentes podem continuar sendo pão de queijo. Talvez por isso a gente nunca se canse dele. Sempre existe outro para experimentar, outro para comparar e a possibilidade de que, na próxima padaria, na próxima viagem ou na casa de alguém, apareça um candidato a melhor pão de queijo da nossa vida.
E no meu caso existe uma vantagem. Se essa busca é interminável, trabalho no lugar certo.
Afinal, amanhã de manhã a Mariana liga a air fryer de novo.