Arquivo de Livros - Blog do Hercules https://blogdohercules.com.br/category/livros/ Histórias, músicas e ideias para quem gosta de entender o mundo. Sun, 23 Aug 2026 15:07:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.1 A Terceira Guerra Mundial pode começar sem que ninguém queira começá-la https://blogdohercules.com.br/a-terceira-guerra-mundial-pode-comecar-sem-que-ninguem-queira-comeca-la/ https://blogdohercules.com.br/a-terceira-guerra-mundial-pode-comecar-sem-que-ninguem-queira-comeca-la/#respond Wed, 10 Jun 2026 00:43:40 +0000 https://blogdohercules.com.br/?p=51 Olhando para o atual cenário da política mundial, lembrei de Nunca, de Ken Follett, com uma sensação incômoda. Não porque o livro imagine um ditador enlouquecido disposto a destruir o mundo, nem porque apresente algum plano secreto para iniciar uma guerra nuclear. O que incomoda é justamente o contrário. Ao longo de mais de 700...

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Olhando para o atual cenário da política mundial, lembrei de Nunca, de Ken Follett, com uma sensação incômoda. Não porque o livro imagine um ditador enlouquecido disposto a destruir o mundo, nem porque apresente algum plano secreto para iniciar uma guerra nuclear. O que incomoda é justamente o contrário. Ao longo de mais de 700 páginas, Follett constrói a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial provocada por pessoas que, em sua maioria, não querem uma guerra. Pessoas que tomam decisões que parecem razoáveis, respondem a agressões, calculam riscos, tentam preservar seus países e, pouco a pouco, aproximam o mundo de um ponto do qual talvez não seja mais possível voltar.

Foi isso que mais me impressionou no livro. A guerra não aparece como resultado de uma única decisão catastrófica. Ela vai sendo construída. Uma ação exige uma resposta. A resposta é interpretada como provocação. Vem uma retaliação. O adversário considera que não pode demonstrar fraqueza e reage novamente. Em algum momento, já nem importa tanto descobrir quem começou. Importa que ninguém sabe mais como terminar.

Follett teve a ideia de escrever Nunca depois de pesquisar a Primeira Guerra Mundial para outro de seus romances, A Queda dos Gigantes. Ao estudar 1914, ficou intrigado com uma constatação histórica: os líderes das grandes potências europeias não acordaram certa manhã decididos a provocar uma guerra mundial. Ao contrário, muitos acreditavam que poderiam controlar os acontecimentos. Houve alianças, mobilizações militares, ultimatos, cálculos equivocados e decisões que faziam sentido dentro da lógica de cada país. O resultado foi uma guerra que matou milhões de pessoas.

A pergunta que Follett transportou para o século XXI é aterradora justamente por sua simplicidade: e se acontecer novamente?

A pergunta se torna ainda mais incômoda quando olhamos para o mundo de hoje. Donald Trump está novamente à frente dos Estados Unidos; Vladimir Putin conduz a Rússia em uma guerra iniciada com a invasão da Ucrânia; Xi Jinping comanda uma China cada vez mais assertiva em torno de Taiwan; Kim Jong Un mantém a Coreia do Norte como potência nuclear em permanente tensão com seus vizinhos; e Benjamin Netanyahu lidera Israel em meio a uma guerra devastadora em Gaza e a um Oriente Médio marcado pelo risco constante de ampliação dos conflitos. São líderes, países e circunstâncias muito diferentes. Mas todos fazem parte de um sistema internacional no qual uma decisão militar provoca outra, alianças entram em jogo, ameaças são respondidas com demonstrações de força e um erro de cálculo pode produzir consequências muito maiores do que aquelas imaginadas por quem tomou a primeira decisão. De repente, a hipótese construída por Follett já não parece pertencer apenas à ficção.

Histórias que parecem não ter relação

A construção de Nunca ajuda a tornar essa pergunta ainda mais perturbadora. Follett espalha seus personagens pelo mundo e, no início, temos quase a impressão de estar acompanhando romances diferentes.

Na África, especialmente no Chade e na região do Saara, aparecem terrorismo, tráfico de drogas, migração, pobreza, serviços de inteligência e disputas locais. Nos Estados Unidos, acompanhamos a presidente Pauline Green diante de decisões que envolvem segurança nacional, política interna e o delicado equilíbrio entre responder a uma agressão e impedir que a resposta produza algo ainda pior. Na China, conhecemos as disputas dentro do próprio regime, as diferentes visões sobre a relação com os Estados Unidos e o papel explosivo da Coreia do Norte. Europa e outras regiões entram progressivamente nesse enorme tabuleiro.

São lugares distantes, personagens que não se conhecem e problemas que, à primeira vista, pertencem a realidades completamente diferentes.

Mas Follett vai aproximando essas histórias. Uma crise aparentemente regional na África provoca consequências em outro país. Uma decisão tomada em Washington altera os cálculos feitos em Pequim. Uma reação chinesa modifica a percepção americana. A Coreia do Norte acrescenta uma nova variável. Governos aliados precisam escolher de que lado ficar. Cada movimento altera o seguinte. Até que percebemos que aquelas histórias nunca estiveram realmente separadas.

Talvez esteja aí uma das grandes qualidades de Nunca. O livro reproduz em sua própria estrutura a maneira como funciona um mundo globalizado. Temos a tendência de olhar para um conflito no Sahel como um problema africano, para uma provocação da Coreia do Norte como um problema asiático e para uma disputa entre Estados Unidos e China como uma questão entre duas superpotências. Follett vai desmontando essa ilusão.

Em Nunca, a Terceira Guerra Mundial não começa em um lugar. Ela começa quando acontecimentos que pareciam não ter relação passam a fazer parte da mesma história.

Ninguém quer parecer fraco

Existe ainda outro mecanismo que percorre o romance inteiro e que talvez seja ainda mais atual: o medo de demonstrar fraqueza.

Um governo pode concluir que a melhor decisão seria não responder a determinada provocação. Mas o que acontecerá se o adversário interpretar o silêncio como fraqueza? E os aliados? Continuarão acreditando que aquele país será capaz de defendê-los? E a oposição interna? Como explicar à população que não reagir pode ser, naquele momento, a atitude mais corajosa?

É assim que uma decisão aparentemente racional começa a produzir a próxima.

O mais interessante é que Follett evita a saída fácil de colocar um louco no comando de uma potência nuclear. Seria reconfortante. Bastaria acreditar que, enquanto pessoas equilibradas governassem as grandes potências, estaríamos protegidos.

Nunca propõe algo muito mais assustador: e se pessoas sensatas também forem capazes de produzir uma catástrofe?

Não porque desejem provocá-la, mas porque cada uma delas dispõe apenas de uma parte das informações, sofre pressões diferentes e precisa antecipar aquilo que imagina que o adversário fará. Um erro de interpretação, uma informação incompleta ou uma resposta considerada excessiva pelo outro lado pode mudar toda a equação.

O mundo de 1914 não está tão distante

É impossível ler o livro sem pensar na Primeira Guerra Mundial. Depois do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, em junho de 1914, uma crise inicialmente localizada entre Áustria-Hungria e Sérvia acionou uma sucessão de alianças, mobilizações e decisões políticas. Poucas semanas depois, boa parte da Europa estava em guerra.

Quando olhamos para trás, conhecendo o resultado, é tentador perguntar como ninguém percebeu o que estava acontecendo. Mas eles não conheciam o resultado.

Essa talvez seja uma das reflexões mais interessantes que Nunca provoca. Nós também não conhecemos.

Vivemos olhando para acontecimentos isolados e tentando interpretá-los individualmente. Uma guerra aqui. Uma provocação militar ali. Uma disputa territorial do outro lado do planeta. Uma potência que reage. Outra que responde. Quase sempre existe uma explicação racional para cada movimento quando ele é analisado separadamente.

O problema começa quando juntamos as peças. E Follett é particularmente habilidoso nisso. À medida que o romance avança, as alternativas dos personagens parecem diminuir. No início, existem muitas possibilidades. Depois, determinadas decisões fecham algumas portas. Outras respostas fecham mais algumas. Até chegar à situação em que todas as escolhas disponíveis carregam riscos enormes.

O leitor percebe o perigo antes de conseguir enxergar uma saída.

Nunca?

Há uma ironia extraordinária no título escolhido por Ken Follett.

Nunca.

É uma palavra que expressa uma espécie de segurança coletiva. Depois de duas guerras mundiais, Hiroshima, Nagasaki e décadas convivendo com armas capazes de destruir o planeta, queremos acreditar que aprendemos. Que existem organismos internacionais, diplomacia, canais de comunicação e mecanismos suficientes para impedir que as grandes potências atravessem novamente determinados limites. Nunca mais.

Mas Follett passa o livro inteiro colocando um ponto de interrogação depois dessa palavra. Nunca?

Talvez por isso o romance permaneça na cabeça depois que terminamos a leitura. Ele não nos pede apenas que imaginemos como seria uma Terceira Guerra Mundial. Faz uma pergunta muito mais desconfortável: como saberíamos que ela está começando?

Provavelmente não haveria uma manchete anunciando: “Hoje começou a Terceira Guerra Mundial”. Haveria uma crise regional, uma retaliação, uma resposta considerada necessária, uma ameaça, uma mobilização militar, uma tentativa de demonstrar força. Cada acontecimento seria explicado individualmente e cada governante teria argumentos para justificar sua decisão.

Até que, em determinado momento, alguém olharia para trás e perceberia que as histórias já haviam se encontrado. E talvez essa seja a ideia mais assustadora de Nunca: o maior perigo não é um governante decidir começar a Terceira Guerra Mundial.

É todos chegarem a um ponto em que ninguém mais saiba como impedi-la.

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